Cresci aqui. Toda esta área em redor era muito diferente. Quase não havia prédios - o que havia era pomares e plantações, e, claro, as vinhas. Antes de construírem a Rua Korunni, existia uma estrada antiga ladeada de cerejeiras. Isso foi antes do meu tempo, mas dizem que na Primavera costumava vir gente da cidade de propósito para admirar as árvores em flor. Essa estrada era como que um caminho que ligava as vinhas à cidade de Praga. No Verão tinha sombra, com sebes altas dos dois lados.
A casa da minha família ficava entre a antiga estrada de Korunni e o rio. Éramos donos de um armazém de vendas, a primeira loja dessas nas redondezas, e as pessoas não paravam de entrar e sair depois do entardecer. Percebe, nessa altura quem aqui vivia eram na maioria agricultores, e de dia andavam todos a trabalhar a terra. Tudo o resto tinha de esperar até que estivesse muito escuro para trabalhar nos campos: fazer a comida, tomar banho, lavar a roupa, e também ir às compras. Depois do pôr-do-sol, as pessoas iam tratar de coisas e visitar os amigos, e andavam com pequenos candeeiros de papel. Os campos iluminavam-se; ao longe, pareciam pirilampos.
A nossa loja vendia de tudo: tecidos, velas, remédios... Naquela época eu costumava ajudar os vizinhos a levar as compras para casa. Saíam da loja com grandes trouxas, 60 quilos às vezes, que colocavam no pátio lá fora, e o Konata e os outros rapazes punham os fardos às costas e iam entregá-los. Pelo caminho, para se manterem animados, os rapazes contavam histórias, em geral de espíritos, bons e maus, que viviam embrenhados na floresta. Os nossos candeeiros projectavam sombras que nos seguiam aonde quer que fôssemos, imagens fugazes de arbustos, árvores e folhas. Agradava-nos imaginar que as sombras mais vivas, que pareciam folhinhas a bater as asas, eram as almas benévolas dos nossos antepassados, a zelar por nós, afectuosas... Pergunto-me se o meu pai, que morreu num acidente quando eu era criança, estaria ali entre elas…
Muitas árvores tinham então um significado especial. Quando nascia alguém na família, os pais plantavam uma bétula se o bebé fosse uma menina, e um carvalho se fosse menino. Ao redor da loja havia sobretudo bétulas, porque do lado materno da família éramos só raparigas. Depois de renovarem a área, todas essas árvores foram cortadas, foi um choque para os mais velhos. Acho que não se podia evitar; não se consegue parar os tempos…
Mas então não pensávamos nisso, naquelas noites de Verão quando atravessávamos os campos de fardo às costas. Lembro-me de uma noite - deve ter sido pouco depois das festas da Primavera - em que à volta os rapazes recolheram ramos de salgueiro ainda com as primeiras folhas e correram atrás de mim, da Hana, da Rika e das outras raparigas, açoitando-nos de leve as pernas quando nos conseguiam alcançar. Quando o Konata e depois o Ura me apanharam, senti um ardor estranho por dentro, a crescer. Devia estar vermelha como um tomate, felizmente na escuridão eles não repararam como eu ficara transtornada. A Hana, a Rika, o Konata, o Ura… agora são sombras, todos. Sinto-lhes a presença brevemente, sempre que passo à noite por Vinohrady e vejo as folhas trémulas da aragem tardia. Se calhar não percebe o que quero dizer… Muitas tradições eram diferentes; mudaram tanto como toda esta área…