20, avenue d’Ivry, torre Tokyo, Les Olympiades, Paris 13.
O passeio com minha mãe pela Avenue d’Ivry, onde vivemos 12 anos, é recorrente e sagrado.
Nesse lugar que foi território de jogos, de gritos, de patins, de bolas, de beijos, de choros e de amizades, minha memória sempre volta por partes.
A torre Tokyo é uma das portas de entrada para o bairro das «Olimpíadas» – Les Olympiades.
O bairro é uma plataforma gigante horizontal, pontuada por torres altas e com construções urbanas baixas no centro, que nem pagodes chineses, abrigando comércios variados, além de uma segunda plataforma menor de onde surge um único prédio mais baixo, porém longo na horizontal.
O bairro, quando foi inaugurado, foi aos poucos habitado por muitos povos, exilados políticos, essencialmente asiáticos. Uma história de exílio que também era a nossa.
Na avenida tinha tudo: restaurantes asiáticos, supermercados, a escola, o dentista, as aulas de música. O médico de família ficava na nossa própria torre. Ele ainda está lá, e me pergunto que idade deve ter.
A avenue d’Ivry é curiosa, curta, intensa e colorida.
A extensão chamada Les Olympiades é a sua parte mais instigante, uma avenida corcunda, com um certo peso nas costas, onde milhões de janelas e transeuntes também contam algo de uma solidão profunda que a cidade pode conter.
Do ponto de vista de onde filmo, desde a esplanada da Torre Tokyo, podemos olhar para a avenida em uma leve plongée envolta em desolação e degradação, marcadas nas paredes, junto ao fluxo das pessoas.
Perto de nós, naquele dia, quando eu estava filmando o plano principal do filme, uma mulher estava no celular com sua mãe falando numa língua estrangeira. Me parecia que ela falava do bairro, mas não entendia nada do que ela dizia, apenas «mama» e «residentano» me remetem a algo conhecido talvez... e também não importa.
Nessa observação dos territórios da minha memória, escuto as vozes que passam, os sons que aparecem e desaparecem, pedaços de histórias que se aproximam e se afastam, que nem os sonhos que procuramos agarrar ao despertar da noite.
E assim, en passant, escuto a pontuação flutuante e musical da trama urbana que se confunde com minha memória em pedaços, entrecortada, nômade e incompleta.
Filmar então é que nem andar: rituais dissonantes impregnados de reminiscências fragmentadas, encontros inesperados e sonhos que se esvaem.
Imagem, som e edição realizados no celular.
Música: Romance Anónimo de Antonio Rubira
Tocada por Louise Wucher – descobrindo a partitura pela primeira vez para este ensaio.