Este ensaio visual sobre a Avenida da Liberdade, em Portalegre, foi realizado no contexto da investigação sobre o papel da improvisação como recurso na criação de banda desenhada, que estou a desenvolver no curso de Doutoramento em Arte Contemporânea no Colégio das Artes – Universidade de Coimbra.
Interessa-me trazer a experiência do desenho de rua para dentro do atelier.
Nesta obra confronto aqueles desenhos feitos no sítio, a partir do real, com os que fiz em atelier, a partir de referências fotográficas. Neste confronto, criado para estas páginas, procuro compreender o que os une e o que os separa, refletindo sobre os diferentes ambientes em que foram feitos e como essas condições interferem e condicionam os registos.
Desenhamos com todos os sentidos e temos diferentes sensações em diferentes espaços físicos. Todas essas sensações confluem e refletem-se nos desenhos.
Os desenhos de rua nascem num contexto de imprevisibilidade, pois estamos expostos a várias distrações e potenciais interrupções. Encontramo-nos dentro do tema de que nos queremos apropriar, envolvidos por uma série de fatores externos com os quais nos relacionamos. Ao desenhar na rua vemo-nos confrontados com variações de luz, com a presença de pessoas que se interpõem entre nós e o alvo dos nossos registos ou cujos movimentos percebemos com a nossa visão periférica e que, por vezes, interagem connosco durante o processo retirando-nos momentaneamente do estado de fluxo. Mas também com os sons e odores do ambiente ou as condições atmosféricas, o frio que faz tremer as mãos, o calor que faz o suor cair na folha ou o vento que faz mover alguns elementos da paisagem.
Todos estes elementos promovem uma distribuição da nossa atenção, o que pode ser perturbador, mas também nos leva a alternar entre o papel de executante e de observador ou espectador, contribuindo para um afastamento da ação de desenhar, voltando a ela com um olhar mais crítico e informado.
Estas condições promovem um estado de urgência em manter um fluxo de trabalho constante e em garantir uma atenção e concentração permanentes, que se formaliza em desenhos mais rápidos, fluidos, sintéticos e que evitam hesitações ou correções.
No exterior desenho maioritariamente de pé. Isto permite reposicionar-me para evitar obstruções visuais mas também causa o cansaço físico que acelera a execução dos desenhos. Esta posição também me obriga a desenhar com a mão suspensa, o que o pintor e teórico da pintura chinês Shitao designava como «punho livre» ou «punho vazio», partindo do ombro o movimento do pincel e proporcionando assim um alargar da extensão das pinceladas.
Desenhar na rua é desenhar em movimento, aproximando-nos assim da sua essência: o registo do gesto.
Já o atelier é um espaço controlado e confortável. Desenho sentado ao estirador e com o braço apoiado, movimentando o pincel com o pulso, a mão e os dedos, o que resulta em pinceladas mais curtas e contidas. Estou sozinho, controlo o ambiente térmico, sonoro e até os odores. Anulo ou evito distrações. Porém, é mais difícil resistir a fazer correções.
Desenhar a partir da imagem estática e achatada em 2D de uma fotografia facilita o processo, mas também exclui as dificuldades que, a meu ver, podem enriquecer os desenhos. Por um lado, desenhar em contexto de atelier facilita a manutenção do estado de fluxo e evita fatores de distração ou interrupções. Por outro, perde-se a urgência o que nos leva, por vezes, a continuar o desenho por demasiado tempo, sem percebermos quando parar, prolongando o desenho com elementos e detalhes que o afastam do essencial.
A narrativa apresentada nestas páginas assenta num processo de corte e colagem dos vários desenhos que fiz, procurando-se construir um retrato da Avenida e da sua simbologia, integrando nas imagens dos espaços verdes do jardim central da mesma alguma da iconografia que a povoa e que conta parte da história da cidade, terminando com uma alusão ao meu processo de trabalho que privilegia, neste caso, o desenho de rua.
As datas dispersas pelas pranchas apontam para momentos da minha vida e da cidade, aludindo à essência da banda desenhada que é tempo no espaço.
Proponho ao leitor, com estas datas não identificadas, que faça a sua própria leitura participando de forma ativa na criação da história.
Concluo com esta análise que por vezes impor barreiras e colocarmo-nos em situações de desconforto pode resultar em desenhos mais expressivos, naturais e honestos. Trazer a experiência do desenho de rua para dentro do atelier pode ser entendido literalmente: uso diretamente esses desenhos, sem alterações ou correções, e componho-os numa página de banda desenhada, organizando-os na folha de forma sequencial e procurando relações de comunicabilidade entre eles.
Mas também pode ser entendido como a aplicação de procedimentos que faço migrar do desenho de rua para o desenho em atelier, com o intuito de me colocar no mesmo modo de atenção distribuída e de urgência que mencionei antes. Como disse, no atelier é tentador recorrer a correções, desenhar sentado com a mão apoiada e criar um ambiente de trabalho que exclua distrações. Para ultrapassar essas tentações, podemos impor-nos de forma consciente, limites de tempo, não fazer correções e desenhar de pé. Podemos também criar artificialmente um ambiente que provoque distrações, como trabalhar com o rádio (ou televisão) ligado em canais de notícias ou debates, promovendo assim essa alternância de atenção entre espectador e executante, que a meu ver contribui para recriar o ambiente de rua em atelier.
Todas estas opções são formas de me aproximar dos resultados expressivos que procuro.