Uma manifestação é simultaneamente um espaço e um conjunto de corpos. O espaço é o das grandes artérias urbanas, avenidas e bulevares, construídos principalmente no século XIX para facilitar a circulação e arejar a cidade, bem como para controlar a população urbana, suspeita de se rebelar imediatamente contra a autoridade burguesa e a sua ordem, que se consolidava na mesma época. Os corpos são os de uma multidão de homens e mulheres organizados, paradoxalmente, para uma demonstração de poder. O poder da sua liberdade de expressão, de manifestar a sua resistência, o seu desacordo, a sua reivindicação. O seu direito de ocupar um espaço de circulação para marchar «todos juntos» e avaliar a sua dimensão. Por todos os lados, os números da manifestação são estimados. Esta multidão precisa deste território para fazer a sua demonstração de força, uma vez que é a quantidade que se tornou o alfa e o ómega do sucesso de uma manifestação e não mais a sua eficácia, como, por exemplo, conseguir erguer uma barricada e conter as forças policiais ou investir um local de poder e mantê-lo. Esta ocupação em movimento, que desfila ao ritmo da marcha, permite a visibilidade para o maior número de pessoas, desde o público em geral até aos meios de comunicação social.
Esta seleção de fotografias explora a relação entre o número e um espaço, neste caso o do panorama, que, tal como essas ruas amplas e extensas, constitui um desafio a superar. O formato panorâmico retoma a extensão singular dessas grandes artérias, pelas quais vamos «pisar o pavimento», por falta de poder lançá-lo. Os corpos, embora numerosos, podem aí ser diluídos ou reunidos. A fotografia panorâmica pode revelar apenas a distância entre os manifestantes, a desagregação e não a coesão. O desafio é, então, dar a entender esse equilíbrio entre todas essas forças de um corpo em ação. A ação combinada é marchar, para que haja um início e um fim, com dispersão obrigatória na saída de uma grande praça. Este momento de perigo extremo é regularmente palco de confrontos entre os movimentos mais descentralizados e espontâneos e as forças da ordem. Estas estão posicionadas para dirigir e filtrar a dispersão, com uma presença imponente e dissuasora ou à espreita nas ruas adjacentes. Estão lá para assinalar a todos o fim e os limites das nossas liberdades