Introdução
Quando Marcelo Felix, curador deste número da Wrong Wrong dedicado ao tema Avenidas, me convidou a participar como autora residente, ocorreu-me de imediato um som, o ensurdecedor chilrear dos estorninhos no passeio da Avenida Habib Bourguiba, sob as antigas e densas filas de Ficus nitida. Era 1995, e a minha primeira viagem ao país, por ocasião das Journées Cinématographiques de Carthage. De súbito, esse som, as árvores moldadas em cortes rectangulares e o movimento na avenida remeteram-me para o vaivém nas avenidas de cidades mediterrânicas do sul de Itália, — lo struscio — o hábito dos passeios ao domingo à tarde, tecendo encontros.
Aceite o convite inspirador, e optando por uma proposta de carácter laboratorial, em forma de ensaio, regresso hoje a essa imagem sonora, memória da Avenue Habib Bourguiba, em Tunes. Nela inscrevem-se as árvores e os pássaros que, desde a origem, configuraram a experiência da avenida, vindo mais tarde a afirmar-se como parte integrante e incontornável do património dos habitantes da cidade de Tunes.
Advenire, «chegar a». A palavra avenida refere-se a uma via de entrada, um caminho de aproximação. Simboliza o acesso, a jornada e o progresso em direcção a um objectivo, ou destino.
Depois de ter desenvolvido um longo trabalho sobre os arquivos cinematográficos da Revolução dos Cravos, para a realização de uma instalação — SEMPRE, apresentada na Cinemateca Portuguesa em Abril de 2024 — inquieta com o nosso presente, tornou-se inevitável que as avenidas de Lisboa, com as projecções de futuro que as habitaram, no momento da revolução e cinco décadas volvidas, venham a constituir a segunda parte da minha proposta. Os dois ensaios visuais AVENIDA perspectiva serão aqui publicados ao longo dos próximos meses.
Avenida memória viva, Tunes 1.
Vídeo 4’29’’ e texto
A Avenue Habib Bourguiba. Conhecida como Boulevard de la Marine no século XIX, a avenida foi rebaptizada Avenue Jules Ferry durante o Protectorado francês. Em abril de 1938, foi palco de uma enorme manifestação que exigia a autonomia e a criação de um Parlamento tunisino. Por fim, em 1956, tomou o nome de Avenida Habib Bourguiba, primeiro Presidente da recém-criada República da Tunísia. O projecto de requalificação da Avenida, depois de ter movido numerosas polémicas e a oposição dos habitantes à substituição das árvores, foi realizado em 2001, com uma reformulação apenas parcial do passeio à sombra dos ficus. Em 2011, quando o povo tunisino decidiu pôr termo aos vinte e três anos do regime ditatorial de Z. A. Ben Ali (1987–2011), foi no coração da avenida Habib-Bourguiba, em frente ao Ministério do Interior, que bradou o seu «Dégage!». A escolha emanava da carga simbólica da Avenida, que ao longo do tempo se tornou uma verdadeira montra dos poderes colonial (1881-1956) e pós colonial, que lhe deram origem.
Os estorninhos e as enormes árvores de Ficus nitida representam um marco incontornável na memória viva dos habitantes de Tunes.
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Ficus nitida. As árvores foram importadas da Argélia e plantadas na Avenue Habib Bourguiba, em finais do século XIX, durante o Protectorado francês. Em imagens de 1882, as quatro filas de ficus aparecem recém-plantadas, ao longo de 1,5 km da avenida. Nas décadas sucessivas as copas das árvores, cortadas em rectângulo, cresceram cerradíssimas. Em 1968 a municipalidade começou a procurar soluções para manter as árvores saudáveis e repor o equilíbrio entre a parte aérea e o sistema radicular dos ficus. Mudados os sistemas de rega, o terreno e as raízes sofreram o ataque de parasitas e fungos. Para o final dos anos 90, deixou de haver continuidade no duplo alinhamento dos ficus e a alameda central acabou por se reduzir a uma mera zona de passagem para a estação do TGM, metropolitano de Tunes.
Em 1999 a Câmara Municipal começou a trabalhar no projecto de reordenamento do grande eixo da cidade. O projecto adoptado revolucionava radicalmente o espaço e colocava a circulação dos automóveis no centro do eixo, retirando as filas de ficus e destruindo a dimensão de avenida promenade. A população tunisina e a Associação de Salvaguarda da Medina, manifestando um forte apego ao valor dos ficus, dos estorninhos e do passeio na avenida, organizou uma oposição ao projecto que foi decisiva. A pressão da sociedade civil levou à reformulação do projecto a partir de 2000. Os cidadãos consideraram as árvores de ficus parte integrante da sua identidade urbana, obrigando os urbanistas a incluir a sua protecção no plano de requalificação de 2001, preparando o terreno para a valorização dos ficus como memória colectiva, desligada do legado colonial.
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Os estorninhos comunicam entre eles até longas distâncias e, sincronizando o seu voo, mantêm o grupo coeso para reagir colectivamente aos ataques dos predadores. Manter-se unidos durante a migração, enquanto estão em voo, também lhes proporciona calor. Frequentemente, ao entardecer, entram nas cidades e recolhem-se nas avenidas arborizadas.
Os estorninhos migram com regularidade sazonal, deslocando-se em voo, livremente, do norte para o sul, e do sul para o norte do Mediterrâneo.
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[ Lei de 24 de fevereiro de 1994, instituída na Tunísia com o Código do Património, Artigo 1.º: É considerado património arqueológico, histórico ou tradicional, todo o vestígio legado pelas civilizações ou gerações precedentes, descoberto ou procurado, em terra ou no mar, seja ele móvel, imóvel, documentos ou manuscritos, relacionado com as artes, ciências, crenças, tradições, vida quotidiana ou outros eventos, datando de períodos pré-históricos ou históricos e cujo valor nacional ou universal seja comprovado. ]
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(Os meus sinceros agradecimentos a André Valentim Almeida, Carlos Santos e Rui Viana.)