Meados da década de 1990.
Na turma do 5.º C da Escola Preparatória Padre Franklin, debate-se propriedade. As crianças da Praia da Vieira, onde não havia ensino além do 1.º ciclo, tinham sido distribuídas por turmas em conjunto com as da vila de Vieira de Leiria, onde se situa a escola. A praia é da vila, não, a vila é da praia, discutimos.
Não demorámos a perceber que as gentes da Vieira e da Praia estão ligadas por muito mais do que 3,5 quilómetros em linha reta. Que as catástrofes naturais são pouco cerimoniosas, quer entrem pela frente de praia ou pela Mata Nacional. O naufrágio do Salsinha em 1907 (morreram 13 pescadores), a subida devastadora do mar em 1958, os incêndios, sobretudo o que em 2017 queimou 86% da superfície do Pinhal de Leiria. O furacão Leslie em 2018. A tempestade Kristin em 2026.
É comum pensarmos que a terra onde vivemos é nossa, que temos uma espécie de propriedade à discrição sobre ela. Que a outra, o outro, o desconhecido, nos vem expropriar. A nossa terra é nossa, mas não é.
Avenida Marginal é uma homenagem à Praia da Vieira e a Vieira de Leiria. Às pessoas que vivem na periferia, que vai muito além do território. A quem nasceu e sempre viveu aqui, a quem nasceu aqui e saiu, a quem nasceu aqui e saiu para mais tarde voltar, e a quem não nasceu aqui mas veio para cá viver (Aline, Ana, Euclides, Gisele, Monique, Robson, muito obrigada por tudo).
Às meninas e aos meninos do 5.ºC da Escola Preparatória Padre Franklin. À minha terra e à sua gente, que é toda a que queira fazer deste sítio a sua casa.