Porque cai a bola de sabão? A criança sopra através daquele portal argolado por onde saem filas de bolas de sabão antes de se dispersarem pelo ar; uma delas bóia até mim, caindo sempre, até deflagrar na minha bota. O que pesa naquela bolha? Tão etérea e transparente, quase como o próprio ar, que não seria surpreendente se não pesasse, que a gravidade não se conseguisse agarrar àquela superfície brilhante e escorregadia. Tudo na Terra pesa – se existe, pesa, se pesa é ancorado ao planeta e acaba por cair. Nada escapa a esta sentença.
Aquela bola de sabão pode esvoaçar porque é leve mas, no fundo, está sempre a cair. Ela é apenas um isolamento de uma pequeníssima porção de ar esférico – o que lá está dentro será igual ao resto cá fora; é apenas uma forma, um limite, um contorno quase sem conteúdo e é apenas esse limite que pesa. A bola de sabão cai pelo peso redondo do seu limite.
O pensamento sobre o nada investiga a ideia de limite, ou seja, contorno, forma, borda, formato, molde, casca, crosta, côdea, pele, margem, invólucro, envelope, embrulho, embalagem, capa, luva, bolsa, máscara, definição. O pensamento sobre o nada propõe uma mudança no regime de atenção – em vez da atenção às coisas, prefere o espaço entre elas, em vez da superfície, a falha, em vez da propriedade, o baldio, em vez da coisa, o desejo da coisa, em vez da argola, o buraco da argola, em vez do muro, a fenda, em vez da parede, a falha, em vez da montanha, o túnel, em vez do som, o silêncio ou o som intermitente, com silêncio lá dentro.
É certo que as palavras servem mais as coisas do que as não coisas, dedicam-se mais aos obstáculos do que aos intervalos entre eles, mais ao que se vê do que ao que não se vê. Este número da Wrong Wrong tenta o contrário – incidirá sobre espaços e vazios, sabão e bolhas de ar, espumas e esponjas, sobre intervalos, desvios e descontinuidades, pausa, procrastinação e desistência. Em tudo o que haverá a dizer sobre tudo, sobre tudo o que existe, o nada, de uma forma ou de outra, estará envolvido.
Filipe Pinto