Eugen Gomringer, «Silencio», 1954Eugen Gomringer, «Silencio», 1954
O pensamento sobre o nada propõe uma mudança no regime de atenção – em vez da atenção às coisas, prefere o espaço entre elas, em vez da superfície, a falha, em vez da propriedade, o baldio, em vez da coisa, o desejo da coisa, em vez da argola, o buraco da argola, em vez do muro, a fenda, em vez da parede, a falha, em vez do som, o silêncio ou o som intermitente, com silêncio lá dentro.
No poema Silencio, de 1953, do poeta suiço-boliviano Eugen Gomringer, o silêncio não está em nenhuma daquelas catorze palavras; o silêncio é aquele buraco ali no meio. Mas aquele buraco não seria possível e visível sem aquela muralha ruidosa à volta. Só assim aquele claustro afónico se tornou compreensível.
O silêncio é um buraco na banda contínua. Como o buraco do donut (como o buraco daquele poema-donut) tem uma existência peculiar. Na verdade, o buraco do donut não existe propriamente, ou seja, não é uma coisa, tudo ali é bolo; o buraco não tem nada, apenas aparência – o bolo oferece-lhe uma forma e por isso uma existência virtual. Não conseguimos isolar o buraco do donut, afastá-lo do seu anfitrião doce; não conseguimos cortar ao meio o buraco e obter duas metades como com todas as coisas que são, pois um buraco é sempre inteiro. Da mesma forma, não conseguimos comer o donut e não comer o buraco (ideias de Kurt Tucholsky, Achille C. Varzi, entre outros). Há coisas que existem e não se vêem e há coisas que não existem e se vêem; os buracos pertencem a este último grupo. O mesmo acontece com o horizonte, que se vê e não existe, ou com a fronteira, que existe e não se vê.
O som é a matéria e o silêncio a ausência desta; logo, o silêncio não se ouve porque não há nada para ouvir, não há nada; assim, o silêncio é um buraco, para existir (como diferença) precisa da matéria adjacente como o parasita necessita de um anfitrião.
O ‘h’ tem nome e forma mas não possui som próprio – é a letra muda, é o buraco no meio do alfabeto; funciona como o contraste sucessivo – influencia o que lhe é adjacente, como a pontuação ou a didascália, que contagiam sem fazer propriamente barulho. A haver uma letra para o silêncio, será o ‘h’.
Ao contrário do poema preciso de Gomringer, onde o silêncio é rodeado pelo ruído, poder-se-á pensar que é o silêncio que rodeia tudo o que é ruidoso, aparece sempre que o som acaba; como se lê num curto ensaio de Lydia Davis, «[A]gora vivo num lugar sossegado, à beira de uma pequena aldeia numa zona rural, numa estrada pouco movimentada. À noite, por vezes, ou ao fim da tarde, há um silêncio envolvente [enveloping silence].» O silêncio como algo que rodeia algo, como uma luva, um silêncio abafador. «O silêncio é como um pano húmido: ele retira o pó sem o fazer voar.» (Quignard)
«El silencio en una casa es como dejarse el gas abierto.» (Lucía S. Sobral) Ou seja, no silêncio, o que se faz é escutar o que pode surgir do silêncio.