Filipe Pinto, «Nothing», 2024 (areia aglomerante para gato, tinta da china), 6x6x6cmFilipe Pinto, Nothing, 2024 (clumping cat litter, India ink), 6x6x6cm
Patos
Andamos permanentemente com as solas coladas aos solos – o movimento do ser humano não é andar, é pisar –, mas na verdade somos seres do ar, penetramos o ar, embora sem a flecha dos pássaros. Tão terrestres como atmosféricos, o chão acompanha-nos toda a vida, em todos os lugares, da mina mais profunda ao terraço do mais alto arranha-céus. Na Tisana 41, Ana Hatherly pergunta: «Sento-me à porta de casa e penso. O céu onde começa? é imediatamente acima do chão? estamos sempre no céu então?» Somos seres anfíbios, de dois elementos, terra-ar, como os mísseis. Os peixes parecem ser os únicos seres não anfíbios, fielmente dedicados a um único elemento. Os patos, pelo contrário, parecem fazer o pleno – andam na terra, nadam na água, voam pelo ar, e, como pássaros que são, têm a sua graça na labareda, como descobriu Perse; o fogo, por fim. Por isso mesmo, os patos são seres do limite, funambulizam os limites entre todos os elementos. Todos os seres vivos não marinhos são pousadores; mesmo aqueles que evoluem pelo aéreo acabam por pousar. Na Terra só há o marinho e o terrestre – o aéreo é circunstancial, temporário, contingente; até os chamados acidentes aéreos dão-se, na sua grande maioria, no chão. O que caracteriza o voo é as asas não tocarem em nada; já o andar e o nadar, ao contrário, são deslocações por contacto. O ar rodeia os nossos corpos; a planta dos pés, apenas no salto. Esta é a magna importância do salto – por instantes somos independentes, desligados e íntegros, completos e autárquicos porque afastados e distintos, apenas com (o) nada à volta. Mas tudo retorna à terra.
Sem-Abrigo
Todas as terras pertencem a países, todos os mares, tudo parece pertencer a alguém, como numa rua – tudo tem vedação, fechadura, código. Portas, caixas de electricidade, automóveis, até certos caixotes do lixo exibem fechaduras. Apenas a rua, propriamente dita, parece utilizável sem chave. Por isso mesmo é o sítio onde dorme quem nada possui. O sem-abrigo, na verdade, não é sem-tecto; o que verdadeiramente o caracteriza é ser sem-porta, sem privacidade e possibilidade de propriedade. O sem-abrigo não pode fechar, não possui um interior; na verdade não pode possuir porque não tem onde guardar – não guarda, apenas pode esconder nos recantos da cidade. Não pode possuir porque não possui uma porta. O interior foi criado pelo homem quando inventou a porta. O novo interior foi ainda mais sublinhado quando a porta ganhou fechadura e a chave. Sem porta, sem chaves, o sem-abrigo só tem o que pode carregar nos bolsos. Há quanto tempo o sem-abrigo não toca numa nota?
Vide-Poche
O vide-poche (despeja-bolsos, esvazia-bolsos) é um elemento do limite, do limiar, do contorno, tal como a fechadura e a porta, a parede e a janela. Preferencialmente, situa-se junto à porta da casa e lá se despejam os bolsos quando se entra, e se reenchem quando se sai; é um sistema basculante, de equilíbrios hidráulicos, onde os conteúdos trocam de contentor, um sistema de marés que, como tal, muda a determinadas horas do dia – geralmente o vide-poche enche-se ao final do dia e vaza no princípio do seguinte. Nele deposita-se tudo o que é inútil dentro de casa – chaves, carteira, dinheiro, óculos escuros, etc. A roupa fica vazia como vazia é a roupa das lojas. O vide-poche serve para ficarmos mais leves em casa, para pisarmos menos profundamente; existe por causa dos bolsos, mas finalmente inutiliza-os.