O mundo inteiro é um palimpsesto repleto de múltiplos significados e sensibilidades. No Vulcão Lanín, a mentalidade ocidental — que reduz a montanha a um marco fronteiriço e a uma atração turística — encontra-se com a mentalidade mapuche, que reconhece *Pillan Mawiza Lanín* como um local de encontro com as forças criativas da vida.
Como diz Ailton Krenak na sua obra Futuro Ancestral: «O desafio que aqui proponho é imaginar cartografias — camadas de mundos — onde as narrativas sejam tão plurais que não precisemos de entrar em conflito ao evocar diferentes histórias fundadoras. É uma maravilha que tais memórias ainda existam nas tradições de centenas de povos, seja nas Américas, em África ou na Ásia...
Estas narrativas são presentes que nos são oferecidos continuamente; são tão belas que dão sentido às experiências únicas de cada povo nos diversos contextos da vida neste planeta. (...) Tais aberturas permitem-nos até recusar entoar a narrativa colonial como se fosse a nossa última hipótese de reconciliação — aquela ideia de que «para nos compreendermos como nação, temos todos de fingir que não houve genocídio». Como podemos imaginar uma história nacional no meio deste cemitério continental? Temos de nos erguer, e estas confluências podem ajudar-nos a fazê-lo. Se o colonialismo nos infligiu danos quase irreparáveis, fê-lo ao afirmar que somos todos iguais. Agora, temos de refutar isso e evocar os mundos das cartografias afetivas — mundos onde o rio possa escapar ao dano e a vida possa iludir a bala perdida; onde a liberdade não seja meramente uma condição de aceitação do sujeito, mas uma experiência tão radical que nos permita transcender a noção de finitude. Não deixaremos de morrer, nem nada do género. Pelo contrário, seremos transfigurados. Afinal, a metamorfose é o nosso estado natural — tal como o é para as folhas, para os ramos e para tudo o que existe.»