O pó da obra sai do interior de um edifício parcialmente demolido, em construção. Entra, entretanto, nos novos apartamentos, no outro lado da rua. Com caixilharia de alumínio lacado e vidro duplo, não se sabe muito bem como é que o pó branco entra. Se pela porta que nunca é aberta (os donos não estão, nem foram vistos), se pelas ranhuras entre o rodapé e o soalho flutuante, instalados à velocidade fugaz da empreitada. Não se sabe como entrou o pó e, neste caso, não vai ter importância. As gruas são o mastro partido de um navio de limpeza espectral em que se tornou a cidade – com as suas avenidas onde os fantasmas têm dificuldade em encontrar os lugares onde um dia viveram.
E os vários espectros radioeléctricos sobrecarregados, dos 800 aos 2600 MHz, atravessam as paredes. A cidade confunde-se, em certos flashes, com um micro-ondas, uma air fryer ou um vulcão cuja cratera está rodeada por antenas. Porque o mais importante é apanhar sinal nos túneis, nos elevadores, nas caves, nas cloacas, em qualquer lugar, para se usar o brilhante mecanismo que é o olho humano. Sim, o fantástico olho humano, capaz de ver com tanta clareza, com um espectro visível que se define pela masterização da sensibilidade a três cores base e através de células dedicadas receptoras de luz na retina. Olho humano que vê geralmente do violeta ao vermelho, com bom desempenho nos comprimentos de onda dos 400 a 700 nanómetros, o olho que consegue identificar as cores do arco-íris, mas que deixa as frequências muito baixas e altas para outros seres, como os pássaros ou os peixes, e que ainda assim consegue ver e, se for preciso, matar. E dizer, de seguida, em silêncio, não se fala mais nisso.
A espectralidade não é apenas o que nos compromete com os mortos e as gerações vindouras. Eis uma responsabilidade invisível (que nivela, estabiliza, estandardiza parte das nossas ações, hábitos e visões de mundo): a partilha e o cruzamento com os espectros no modo de aceder, contemplar, actuar sobre a realidade – o que pode ser questionado.
Sabemos que o espectro é uma banda, uma fatia do visível, do sonoro, biológico e político, informando a apreensão e relacionamentos humano e inter-espécies. O espectro define-se entre limites. Porém, é nos limites, na franja, que se vão operar os acontecimentos, as fabulações, as experiências perceptivas e poéticas mais transformadoras que, na produção artística, na solidariedade e na amizade podem ter lugar e tempo.
Este número da Wrong Wrong celebra os limites translúcidos que se trabalham em vários espectros, partindo primeiro do imagético, da fotografia (como meio que masterizou e colocou a luz no seu centro, como forma de arte que desde cedo imprimiu sem escape esse confronto com a morte), e logo para outras radiações da linguagem, neste caso emanadas através da luz de um ecrã, com mais ou menos pó.
Bruno Humberto