Depois de anos de esquecimento, a Guerra Colonial regressou às minhas preocupações
Manuel Botelho
Depois de muitos anos de relativo esquecimento, a Guerra Colonial regressou às minhas preocupações. No final do verão de 2006 comprei uma máquina fotográfica digital e fui bater à porta do Museu Militar. Queria fotografar uma G3 e uma Kalashnikov devido ao valor simbólico de ambas. As imagens resultantes acabariam por ser apenas a ponta do icebergue.
Naquela enorme sala do Museu Militar, fui soldado. Estive mobilizado em África, talvez em Mueda, ou Nambuangongo, ou Guileje… Vivi dias de tédio e noites de terror, estive emboscado no mato, dormi agarrado à G3, passei fome, e sede, vomitei rações de combate, esbanjei poupanças a jogar à lerpa, «fumei» cigarros em doses asfixiantes, tombei «intoxicado» com tinto e cerveja, «morri» sem glória na picada. Condenei-me, suicidei-me e perdoei-me.
Foi uma longa performance testemunhada apenas por uma Canon 5D. Decorreu em simultâneo com uma busca intensa de material de trabalho. Como a minha vivência direta da guerra era nula, comprei livros, adquiri tudo o mais que pude encontrar na Feira a Ladra e em armazéns de velharias. Os inúmeros depoimentos a que tive acesso foram-me imensamente úteis, tal como toda a tralha que consegui acumular. Precisava de informações credíveis para colmatar a ignorância, e de objetos que povoassem a minha imaginação.
Já em casa em casa, trabalhei numa varanda virada a norte e exposta às intempéries. Na aventura que se seguiu inventei mapas, protegi-me de ataques iminentes, construí castelos de cartas e pude contar uma história a dois, coisa que me estava interdita no museu. A madrinha de guerra que me surgiu do nada foi a companheira possível. Um breve milagre. Serviu para mitigar o sofrimento. O vazio. A solidão. A desesperança.
Tudo o que inventei era falso. E espectral. Mas nunca fiz nada de mais verdadeiro.