«Há uma espécie de estupefação no facto de vermos um ser familiar vestido de outra maneira.»
Roland Barthes, A Câmara Clara
É de madrugada e ainda não consigo dormir. Aperto as pálpebras e respiro seguindo um ritmo que eu mesmo me imponho para me obrigar a descansar. Na escuridão, escuto a respiração silenciosa e regular da minha esposa, que dorme há horas ao meu lado. Ela teve um dia complicado: análises de manhã, trabalho, consulta ao meio-dia, trabalho, uma consulta invulgar num hospital de Lisboa, trânsito, casa.
Depois de jantar, mostrou-me os artefactos que leva colados ao corpo e cuja finalidade é registar as palpitações do seu coração. Pela maneira como se despiu e pelo tipo de luz que iluminou a sua pele, nasceram em mim umas ganas terríveis de lhe tirar uma fotografia. Ela adorou a fotografia, mas expressou um certo pudor ao imaginar que aquela fotografia saísse do nosso nicho privado.
Na escuridão, volta à minha cabeça, com uma nitidez fabulosa, a imagem que capturei. Quase involuntariamente, pouso a mão no seu peito para sentir o bater do seu coração. Encontro-o. O seu pulso sanguíneo passa para a minha mão, gerando em mim uma sensação de alívio. O meu diagnóstico é que ela está mais saudável do que nunca. E digo a mim mesmo que qualquer anomalia registada por aqueles aparelhos frios seria um erro da tecnologia, nada mais.
No entanto, os cabos e os sensores de contacto intrigam-me. Durante vinte e quatro horas, colaborarão para compor e gravar uma partitura que ninguém mais pode protagonizar senão o pulso e a ressonância do seu corpo. Por isso se disse que a música é a arte mais primitiva, porque basta escutarmos o nosso corpo para ouvirmos os seus elementos. Certamente, não será uma partitura convencional.
A informação será traduzida graficamente num certo tipo de espectro. Eventualmente, alguém fará uma leitura e dará um diagnóstico. Na escuridão, vejo aquelas linhas trémulas a formar uma espécie de cordilheira no papel de laboratório.
Escuto ruídos distantes: passos na rua, o vento a embalar as árvores e os motores dos autocarros noturnos. Em breve, ouvir-se-ão os primeiros aviões a sobrevoar Lisboa. E, um pouco mais tarde, as aves e a vida quotidiana.
Na escuridão cada vez menos densa do quarto, a imagem regressa e, apesar de a fotografia a mostrar sem cabeça, eu vejo-a inteira, com o rosto iluminado pela luz do candeeiro. Sorri com certo semblante de tristeza. Os seus olhos dizem-me a verdade.
Também vejo – imagino – o gráfico que o aparelho regista a cada segundo. A isso soma-se um som profundo e abstrato, quase como um batimento. Será que nasceu uma nova imagem na minha cabeça? Poderá alguém mais vê-la tal como eu a vejo?