A britânica DuPont Polyester Chemical Industries a meados dos anos 50 desenvolveu o Mylar; nesse período, certamente, perceberam a revolução tecnológica – e pouco ecológica – que poderiam estar a instigar. É provável que tenham previsto a sua durabilidade a longo prazo, tornando-se a solução mais utilizada (até hoje) para embalagens e armazenamento térmico. No entanto, imagino, dificilmente poderiam especular que este se tornaria matéria-prima para pesquisas artísticas e performativas, como Luísa Mota tem feito desde o ano de 2009.
Eu, tão distante destes factos, na infância, no supermercado mais próximo da minha Serra, insistia com a minha mãe para comprar caixas inteiras dos míticos Capri-Sun. Não imaginaria que este material voltaria a me envolver com tanto entusiasmo e magia. (Na verdade, nunca achei o sabor especial, mas sim as embalagens, elas mesmas feitas por uma percentagem de Mylar – anos passaram – e a felicidade sempre me atinge quando encontro um novo sabor/desenho em pacotes Capri-Sun.)
Quando Luísa me desafiou para explorar uma performance a solo de Crystal Beings – a me deixar ir, algo naquele convite (e material) me soou estranhamente familiar, apesar da surpresa e da imprevisibilidade da situação. Crystal Beings, são personagens silenciosas e estridentes nos sons metálicos que ressoam ao se movimentar nos seus fatos-manto: Mylar. Funcionam como espelhos-amuleto ativando processos coletivos de pensamento à invisibilidade – O que é ser-se invisível? O que espelha a nossa invisibilidade? Quem são os invisíveis? Como se performa a invisibilidade?
Este fato, segunda pele, é assim um manto mágico, uma proteção, uma invisibilidade, um reflexo de nós mesmos e do contexto onde ele está a ser vestido, movimentado e performado.
How to not be seen? A fucking didactic educational MOV file, de Hito Steyerl foi a criação artística que (imediatamente) me veio à mente, quando entrei em contacto com este convite e com o próprio fato e material. Crystal Beings traz à superfície questionamentos sobre o ato de encenar a invisibilidade enquanto se é altamente percepcionado.
Metaforicamente – o mesmo que fazer pesquisas online num browser anónimo, tentando ser invisível quando mesmo assim este endereço IP continua a ser vigiado, visível e altamente monitorizado.
Luísa, assim como Hito, dão-nos manuais de instruções que podemos também chamar de metodologias tentativa-erro para repensar a invisibilidade. Numa era onde não há tempo a perder e onde os litros de água do nosso corpo se dissolvem com algoritmos, ligações wi-fi e a refrigeração de motores de centros de data de inteligência artificial.
Hito, neste MOV file, realça cinco lições de como não se ser visível. Na lição número quatro, a invisibilidade é instigada através de uma prática de desaparecimento que, como a própria afirma: «viver numa comunidade fechada; viver numa zona militar; estar num aeroporto, fábrica ou museu; usar uma capa de invisibilidade; ser um super-herói; ser mulher e ter mais de 50 anos; navegar na deep web; ser um pixel morto; ser um sinal de Wi-Fi que se move através dos corpos; e ser uma pessoa desaparecida como inimiga do estado.» Numa terça-feira ensolarada, fui até ao estúdio da Luísa e segui o manual de instruções dos Beings, pratiquei o desaparecimento – vesti uma capa de invisibilidade (fato Mylar), tornei-me um super-herói, uma pessoa desaparecida, sem identidade, não perceptível de identificação e quase naveguei na deep web de lugares desconhecidos a que acedi.
O manual de instruções dos Crystal Beings inicia com uma ideia de encantamento, explorei o fato-material e a proteção invisível para onde ele nos transporta. Estas personagens-performance contêm nas suas instruções o empoderamento individual e coletivo através do mágico ritual do encontro. Contém simbolismos paradoxais, pouco concretos e até de alguma forma obscuros, capazes de ativar múltiplas camadas de percepção. Em Crystal Beings, as invisibilidades e as energias subtis que eles ativam são uma estrutura vibrante que molda a experiência do performer assim como dos «espectadores», ativando este limiar entre o visível e o inaudível, entre o real e o imaginado. A obscuridade no trabalho de Luísa não é uma ausência, mas uma presença estridente, que desafia as percepções do oculto e provoca um constante sensação de mistério que fricciona com a descoberta.
Nessa manhã, fui à experiência, vesti o fato com ajuda de Rafaela, studio producer de Luísa – que cuidadosamente me orientou na necessidade de me movimentar com calma, intenção e alguma cautela na respiração, tornando todo este processo ainda mais denso e bem ritualístico. Vesti-me de baixo para cima, começando por embrulhar os meus pés em tiras retangulares deste manto cristalizado — estes ficaram semelhantes a uns festivos rebuçados, prontos para comer em algum momento de celebração ou de sugar craving. O vestir do restante fato foi algo semelhante à muda de um uniforme de trabalho, uma segunda pele, do desconforto ao encaixe. Terminamos com o que podemos chamar de: capacete cibernético (de um outro mundo) também este de Mylar e que me cobriu totalmente a cabeça.
Existe aqui um certo nível de confusão associado ao ficar totalmente irreconhecível: quando escrevo, totalmente, é: não existe um milímetro de ti ou da tua pele perceptível, visível, acessível, compreensível, inteligível, nítida ao olho de outras pessoas. A única maneira de ver sem a distorção provocada pela visão mylarizada — efeito turvo e, por vezes, holográfico causado pelo capacete cibernético — é através de uma estreita fresta, quando se foca o olhar no chão. Saliento. O manto de Mylar é composto por uma resina de poliéster — um plástico muito fino e transparente — produzido ao derreter resina e ao esticá-la, biaxialmente (em duas direções). Este processo cria uma transparência única mylarizada – que por vezes é turva e por vezes holográfica. É possível ver através deste manto Mylar, mas essa visão surge como um glitch — uma distorção, uma quebra na percepção, um fractal, assim como o significado metafórico dessas personagens.
Agora, eu era, um espelho fractal, uma segunda pele de desconforto, um desconforto, térmico, sonoro, de contacto pela tensão do corpo no rijo material quase: plástico-quebrado-metalizado. Este efeito de espelho fractal, muito mais do que um efeito de volumetria difícil-difusa representa uma figura da geometria não clássica, muitas vezes encontrada na natureza em padrões de árvores, furações conchas do mar, – um objeto que repete os traços num padrão interminável, padrões infinitamente complexos, criados pela repetição de um processo simples. Neste fato-manto-metalizado são os meus movimentos (processo simples) que geram formas geométricas de padrão interminável e complexo (espelho fractal), um sistema dinâmico, quase que uma representação do Caos. Saí do estúdio, lentamente, senti a transpiração no material, olhei o chão pela fresta de visão turva do capacete. Segui.
As indicações eram claras e simbólicas: resistir o quanto conseguisse, explorar meu redor, e espelhar aquilo que para mim representava a invisibilidade e me tornar, de fato, invisível. Quando dei os primeiros passos fora do estúdio, não pude deixar de pensar que, no mundo contemporâneo, é quase impossível – senão completamente inalcançável – alcançar tal invisibilidade. Tornar-me invisível parece hoje (mais) um ato de resistência, uma forma de liberdade de circulação e ocupação do espaço público. Caminhar suavemente pela Invicta com um manto de invisibilidade foi, de certa forma, um exercício de transgressão e transmutação. (Relembro que a cidade do Porto, nos últimos anos, investiu cerca de 3 milhões de euros em um sistema de câmeras de alta vigilância que funcionam na totalidade desde 2023 na baixa e centro da cidade.)
Comecei lentamente a praticar como refere o artista e teórico de som, Brandon Labelle: «o desaparecimento – um corpo que está lá fora mas que nunca se apresenta totalmente – uma prática desviada, uma prática de fantasia e incorporação, uma energia de superstição, onde o entendimento racional e o raciocínio cedem espaço para estados de percepção alternativa. Os desaparecidos ocupam uma arena nebulosa e difícil que nos empurra para as periferias do pensamento político, social e da ordem emocional.» É, por isto, essencial reconhecer o ato de resistência da invisibilidade nesta era da hipervigilância e das hiperligações, refletindo também sempre nas tensões que envolvem os grupos invisibilizados e silenciados (diariamente) — contextos socioeconómicos (marginalizados, explorados, precarizados) ,trabalhadores domésticos e de cuidados (de saúde ou sexuais), e entre grupos étnicos, raciais, de género, sexualidade de subjetividades dissidentes. A invisibilidade, na maioria das vezes, não é uma escolha, mas uma imposição, em que a ausência de acessos e direitos resulta em: exclusão. Dessa forma, a busca por me tornar invisível carregou, um potencial libertador e um lembrete das desigualdades e violências que persistem, e na sua maioria: perseguem os tais, invisíveis.
Parei a reflexão. Deixei-me ir, continuei… fui caminhando rua fora ou dentro (não esquecendo) vestida neste manto-mylarizado.
A minha invisibilidade era (altamente) questionável, sentia-me como que em uma liberdade anónima, irreconhecível, e que me tinha transmutado num qualquer outro ser de fato, metalizado, bizarro e estridente. Os ruídos metalizados provocados pelo movimento do Mylar, foram o primeiro portal que me fizeram hipnotizar. Senti-os como suspiros que me atravessaram e transportavam para um outro mundo de Seres-Espelho de Cristal, quase que Formas Emergentes de Resistência e de Potência. Dei por mim a entrar num estado meditativo, intuitivamente, ativei uma coreografia, um jogo entre movimentos e sonoridades que me deixou num estado de flow, numa espécie de transe energético e de hiper-focus. Cada passo, movimento, uma sinfonia estrídula e por vezes ridícula. Movimentos, harmónicos, sons metalizados que se entrelaçam e se dissolvem como chuviscos.
Juro que senti este fato-uniforme como uma possibilidade de orquestra do ruído auto-gerido e participativo.
Desde sempre que, para mim, sons vibrantes e por vezes arrepiantes intrigam e conquistam-me; este Grey Noise, causado pela plasticidade poliéster, não foi diferente. Na verdade, ativou uma espécie de escuta quântica: um pico de energia, um foco na meditação e profunda reflexão — como diria Oliveros: uma escuta ativista. Sincronizei o meu corpo com o contexto: o fato de Mylar e o espaço público num ambiente altamente (não)confortável e ruidoso, algo que me fez sair do Matrix da everyday pressure-vida capitalista. Este momento e essa reflexão despertaram em mim não apenas uma espécie de escuta quântica (conceito de Pauline Oliveros), mas também uma sensação quase tangível de fusão com o material. Senti-me agregada àquele momento, quer pela sonoridade que me entrava cabeça dentro, quer pela transpiração que me envolvia, ou até pela grande confusão que gradualmente como uma montanha russa tomava conta de tudo.
Dei por mim, intuitivamente, a procurar-me nos reflexos, em busca do que eu visualmente representava — o reflexo, um fractal em pedaços. Ao passar por um pequeno lago, procurei-me na água, no reflexo distorcido, na sombra que projetava. Uma sensação de desidentificação despertou em mim essa ideia de invisibilidade — onde estava? Para onde continuava? E, confusa, continuei.
Encontrei nesses reflexos, a mim própria, agora um espelho quebrado em pedaços, um fractal, uma ambígua invisibilidade. Conseguia ver a minha forma turva através desta visão mylarizada: procurei-me em espelhos refletores de carros, vidros de janelas, casas, montras comerciais, espelhos de água de chuvas de outros dias e que por ali ficaram. Encontrei-me em vários momentos de confronto ou de desconforto de pessoas que paravam, filmavam, ou só seguiam, estas últimas assimilando a minha invisibilidade, ao ignorar-me, invisibilizando-me e não me visibilizando.
A visão mylarizada, fez-me quebrar um pouco os sentidos, olhar o céu com um manto Mylar, pode ser quase alucinante mas nem sempre confortável ou concreto. Deitei-me no chão, olhei para cima, perdi-me nas ilusões ópticas. Continuei.
Era oficial, era agora invisível para alguns e altamente questionável para outres. Quase um espelho fractal: refleti em mim uma multiplicidade-plástica de detalhes, que, neste caso, nunca iguais. Relembramos que estudos recentes têm evidenciado a presença de microplásticos nos cérebros humanos, e agora, eu mesma, era um fractal de plástico invisível. Transformei-me, circulei, fundi-me, perdi-me e, no fim, assimilei-me. Como diz Astrid (a mamacita do movimento hidrofeminista à qual roubei o título deste ensaio), somos todes portadores de uma trans-corporalidade. Ao me tornar esse espelho fractal — Crystal Being, acedi uma outra dimensão de transformação, onde o eu se dissolveu e se refez em mil formas, questões, percepções e ilusões.
E, assim seguimos, questionando
Ou, Ao Tornar-me Espelho Fractal que Espelha visões alteradas-quebradas da sociedade
Texto por Reina del Mar atravessado pelos Seres de Cristal de Luisa Mota.