Na cidade de São Paulo o cimento parece brotar do solo como braquiária, erva daninha ou até algumas árvores. Ele se alastra com folga, frequentemente sem um propósito evidente. Transforma-se em prédios, viadutos e pontes com vidas pulsantes que finalmente adoecem e, muitas vezes, morrem, conforme a cidade se rearranja. Assim nasceu o elevado Presidente João Goulart, uma via expressa que na boca de uns ligava lugar nenhum a nenhum lugar, e, na de outros, a casa do prefeito à de sua mãe. Nunca foi visto com bons olhos. Erodiu os imóveis em seu entorno e transformou a vizinhança. No passado, ligava uma região periférica ao centro, e, hoje, faz parte da região central da cidade. Mantê-lo tornou-se desvantajoso e derrubá-lo, caro demais, então, com frequência, projetos diversos surgem e sucumbem de acordo com o temperamento do momento. Atualmente, durante o dia, com o intenso e lento fluxo de carros, proporciona aos motoristas uma visão da cadeia de montanhas que envolve a cidade. Durante a noite vira pista para transeuntes, bicicletas e outras formas de locomoção não motorizadas, oferecendo uma vista variada do interior dos apartamentos da cadeia de prédios que o envolve. Nos fins de semana é um espaço de lazer. Embaixo, seus pilares já foram uma galeria de arte. A calçada central, que divide as duas vias de carros, é abrigo de muitos moradores e, de tempos em tempos, vira casa mobiliada com sofá, cama e cozinha. Popularmente conhecido como Minhocão, sobrevive à passagem do tempo e reduz a velocidade impessoal e desumana da gentrificação.