Neste número da Wrong Wrong fazemos uma visita breve a algumas cidades, captando algo das suas histórias, particularidades e quotidiano. Da Europa que hoje questiona o seu projecto comum e avalia aquilo que verdadeiramente une os seus povos, a paragens mais longínquas onde tensões internas e abertura ao exterior criam espaços de fascinante contradição, a visita que propomos, guiada pelo olhar de artistas e criadores locais, permite tomar o pulso a aspirações e problemas semelhantes, que convergem na circulação diária, construtora e cosmopolita dos cidadãos por esses espaços de história particular e de exposição aos olhos e ao movimento do mundo. As cidades visitadas abrem-se, assim, a um encontro mais íntimo e sugestivo, e a um vislumbre do que as distingue e aproxima.
As avenidas, lugares simbólicos dentro das cidades, evoluíram e impuseram-se progressivamente enquanto espaço público por excelência durante os séculos XVIII e XIX, em pleno florescimento do ideário iluminista. Ao renovar o espaço urbano segundo um propósito humanista, elas concretizam uma apropriação do tempo e sociabilidade modernos, e inscrevem-se na emancipação da classe que a impulsiona. A mudança fisionómica que assinalam corresponde a um novo carácter da colectividade urbana. A linha recta, o passeio amplo, supõem um desanuviamento da vista; a arborização, um descongestionamento da mente e dos pulmões. As avenidas impregnam-se das expectativas que a sociedade acalenta quanto ao seu próprio dinamismo, reivindicando modelos históricos (Roma com a ordem e clareza do planeamento e equipamento público; a Grécia Antiga, com a sua participação cívica, ramificando-se na cultura da pólis, no debate político e filosófico, nos acontecimentos rituais e artísticos) com o propósito de lhes devolver a proeminência.
A avenida é um projecto burguês, passível de reinvenção, que assistirá a dramáticas transformações sociais, as quais também a tomarão como palco. Nela sempre coexistiram, contraditoriamente, o impulso de transformação e a ordem da continuidade. Nessa tensão assenta o dinamismo da História, e é a sua evolução que faz das avenidas corpos vivos exemplarmente talhados para explicar as suas sociedades, no que destas espelham da inovação e degradação, progresso e retrocesso, harmonia e desigualdade, liberdade e constrangimento, funcionamento e paralisia, esperança e desalento, paz e revolta. Os problemas que se acumulam são sociais, políticos, económicos, culturais, climatéricos. Na história de cada avenida, poucos deles serão uma novidade; de múltiplas formas, eles sempre as percorreram, modificando-lhes as feições e alterando os seus equilíbrios.
Os sinais dessa história subsistem, quer no que se conserva, quer no que, desaparecido, deixou registo. E o seu mostruário visível, imenso, convoca neste número da WrongWrong um esforço de memória e de antecipação: uma avenida é um conjunto de elementos circunstanciado, rebelde até. Defrontam-se nela acontecimentos, concepções, opções de sinal contrário, e percorrem-na simultaneamente uma miríade de vivências e de visões do mundo. O sentido aglutinador primordial é o seu próprio espaço e os trajectos possíveis que acolhe: a sua esfera, o que lhe dá vida própria, partilhada diariamente por milhares de pessoas. É a experiência dessa esfera, de alguns dos seus trajectos, o que Avenidas pretende oferecer para lá das evidências.
Marcelo Felix