Pele
O sabão faz parte daquele conjunto de objectos ou materiais que não possuem pele, como o rebuçado, o batom, certos queijos, etc., isto é, o seu interior é indiscernível do exterior, o interior começa imediatamente cá fora. «Nenhuma casca, nem sequer epiderme: porque nenhuma pretensão de ser autónomo», diz Ponge. São igualmente coisas que não permitem o uso, apenas o abuso; isto é, a cada utilização voltam sempre visivelmente maculados, diminuídos, até, por fim, desaparecerem sem deixar rasto, resto ou desperdício. São objectos justos. O seu uso confunde-se com uma espécie de reciclagem; até desaparecerem completamente vão-se diluindo noutro sistema – o sabão na água do banho, o batom nos lábios, o rebuçado na saliva agora doce. Deles não sobra nada.
Formato
Os almoços-volante são sempre difíceis exercícios de malabarismo e destreza. Entre o prato e o copo, o garfo e a comida, a mastigação e a fala, tudo resulta num conjunto atamancado e desajeitado, sempre à beira do colapso. Numa dessas ocasiões, uma pessoa deixou cair a caneca da sopa que já estaria vazia, pelo que se estatelou seca mas com espalhafato no chão dos comensais levantados. Não há problema, o material está aqui todo, só se perdeu o formato, disse o empregado ao aninhar os cacos na pá aberta. De facto, estava lá tudo, embora espalhado pelo chão. Aquela ocorrência mostrou-nos a caneca como apenas um momento intermédio entre a sua produção e os cacos horizontais. A caneca mostrou-se, também ela, apenas um acontecimento, assaz fugaz, algo que aconteceu durante um determinado tempo. O formato, o contorno – a caneca, enfim – era apenas aquela força temporária que mantinha tudo reconhecível e unido, e que desapareceu subitamente no final daquela queda no princípio daquele almoço.
11 de Setembro
As torres gémeas do World Trade Center permaneceram gémeas até ao final – foram ambas perfuradas por aviões comerciais cheios de passageiros e combustível, sofreram dois incêndios catastróficos mas independentes, e acabaram por ruir na vertical em jeito de implosão, duas quedas em prumo; aprumadas porque ordenadas como se tivessem sido previstas e planeadas. Embora o sentido de uma queda seja vertical em direcção ao chão, nem todas são tão precisas. Caíram na vertical como a chuva e a sombra do meio-dia. Das duas torres saltaram muitos dos que já estavam condenados – aquelas quedas tinham a forma de suicídio, mas, na verdade, tratava-se de assassinatos, um a um. Tudo naquele dia foi chocante, inédito e visível. Wisława Szymborska tem um poema notável onde descreve a queda mas não as mortes, tentando perpetuar como pôde aquelas vidas abreviadas – o que mata não é a queda pelo ar vazio mas a colisão com o chão:
«Atiraram-se dos andares em chamas.
Um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais abaixo.
A fotografia deteve-os na vida,
e agora preserva-os
sobre a terra rumo à terra.
Cada um ainda na íntegra,
com rosto individual
e sangue bem guardado.
Ainda há tempo
para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.
Ainda estão no âmbito do ar,
ao alcance dos lugares
que acabaram de se abrir.
Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever este voo
e não acrescentar a última frase.»
Com a ruína dupla, os materiais de cada torre que tinham sido separados no início da construção reuniram-se outra vez, como uma bifurcação que se volta a fechar, como o rio à passagem de um barco. No final, lá estava aquela colina espinhosa, promíscua e instantânea no centro de um dos centros do mundo. Foi motivo de espanto e até de teorias lunáticas o facto de aquele quilómetro conjunto de construção sólida e vertical resultar num monte de entulho com apenas algumas dezenas de metros de altura. Aquele quilómetro foi espremido e comprimido pelo seu próprio peso, e fez sair o vazio. Blanchot escreveu, a propósito de Mallarmé, que «se apertássemos o mundo para fazer sair o vazio, ele caberia na mão.» O interior das torres, o interior de qualquer casa, tem mais vazio do que coisas, mais ar do que material, como as páginas de poesia. São espaços-esponja, espaços pejados de vazio por encher, de nada por preencher – trata-se do vazio por onde nos movemos ou por onde a luz alastra e ilumina. As casas têm mais nada do que matéria, o que permite a compressão em caso de catástrofe ou demolição; a destruição ocupa sempre menos espaço. No interior das casas, o espaço é um luxo – quanto mais vazio, quanto mais nada, mais luxuoso; a casa pequena e pobre está sempre cheia. O contrário acontece com o frigorífico e a despensa da casa rica.
Fragmento
O bocado – o fragmento – tem os limites onde não deveriam estar; o seu contorno é errado. O problema do fragmento é um problema da forma, ou seja, de limite, é um problema de como o ar contorna a forma. Vemos o bocado, mas vemos, simultaneamente, a peça inteira; só assim podemos reconhecer que falta ao bocado um bocado, ou seja, que no lugar do resto que o completaria está o ar; que o ar não circunda a coisa pelo lugar devido – que é à volta dela –, como se a forrasse, como se forrasse o seu contorno, mas percorre agora a área que outrora a coisa completa ocupava. A assunção de um bocado obriga a ver o que, na verdade, não está lá; se assumirmos estar na presença de um bocado – de um fragmento –, assumimo-nos como uma espécie de visionários; arqueólogos e visionários. De um bocado, percebemos o todo. Sinédoque.
[excerto de Sinédoque, revista Interact 32-33, 2020; https://revistainteract.pt/32-33/sinedoque/]