Pequeno-almoço com Gérard F., um amigo do meu pai. Crânio em forma de ovo, na cabeça pouco cabelo, apenas uma madeixa rebelde. Gérard vive numa casa meio enterrada, com um quarto (uma cama, uma televisão), uma cozinha (uma mesa, uma cadeira e, de utensílios, o mínimo indispensável), uma casa de banho (um duche munido de uma cortina cor-de-rosa, uma sanita, um espelho).
Na Primavera, no Verão e no Outono, trabalha como lenhador e cozinheiro. Quando chega a estação fria, hiberna e raramente sai da cama. Durante este período invernal, o pequeno-almoço é a sua única refeição.
Numa grande tigela, Gérard F. pousa delicadamente sete madalenas sobre a superfície negra, brilhante e imaculada do café. Acabadas de sair do saco, as madalenas inchadas de ar, flutuam à deriva. Gérard F. observa atentamente os movimentos subtis do arquipélago. Como um caçador à espreita, armado com uma colher de sopa, espera pacientemente pelo momento do colapso, quando a madalena, embebida em café, se afunda a pique. Então, com um gesto hábil e rápido, antes que ela toque no fundo da tigela e se despedace, colhe-a e engole-a.
«Please do not disturb: seismograph equipment». O instante zero, o primeiro frisson, o incipit: aquilo que ecoa em cada frase, em cada fase. Segundo a teoria leibniziana, um ponto espácio-temporal onde está tudo em jogo, o passado, o presente e o futuro. Alea jacta est.
Primeiro orgasmo: Algo sacode-me da cabeça aos pés. Ninguém me tinha prevenido! Algo mais forte que eu, dentro de mim. Minúsculo sismo interno, de consequências tremendas.
Especialista em tremores: Figura emblemática dos westerns americanos: o índio ajoelhado, com a orelha colada ao chão. Sabe avaliar perfeitamente o número de cavalos e a distância que os separa da cavalaria no seu encalce. Em geral, se não é sioux nem cheyenne, é apache. Outro Perito: O índio das planícies, deitado sobre a via férrea, a orelha (seu instrumento predilecto) colada à viga de aço, com a mão direita ligeiramente erguida para se fazer mais silêncio, num estado de concentração máxima. Consegue prever, com precisão, graças ao tremor que se repercute de carril em carril, a hora da passagem do «cavalo de ferro» no ponto exacto onde se encontra.
Os romanos eram cruéis, toda a gente sabe. Eram também irrazoáveis, e a prova é esta: comiam deitados. A cruz acompanhada do seu crucificado foi o primeiro sismógrafo romano verdadeiramente eficaz (mais uma vez, o instrumento e o seu operador estão numa relação simbiótica, do tipo mutualista). Como funcionava? Quando a terra tremia, a cruz, cujo eixo principal estava profundamente plantado no solo, tremia também. Por via de consequência, os pregos tremiam dentro das feridas e o crucificado gritava, de dor e de raiva. Supunha-se então que gritava na direcção do epicentro, talvez para o interpelar, insultar ou pelo menos manifestar a sua indignação. Como o crucificado não se podia virar por causa da cruz e dos seus braços bem abertos, crucificavam-se pelo menos três em cada apresentação (pois, entre os Romanos, tudo era um espectáculo!). Os membros do grupo eram dispostos em círculo, de modo a que cada um, graças à sua visão periférica e à flexibilidade do pescoço, pudesse ver a imagem fantasmática do seu vizinho. Os supliciados podiam assim contemplar a paisagem e, se por desgraça a terra tremesse, indicar com exatidão o lugar de onde vinha a terrível maldição.
Dentro do género: fotografia do protagonista agachado com o seu instrumento, no sentido lato, temos Átila, o caçador de javalis, com a arma de um lado e a presa do outro; o pescador de siluros (grande peixe fisóstomo provido de barbilhos mas desprovido de escamas), mais meigo que o caçador, igualmente fotografado agachado, mas com o seu peixe de estimação nos braços, quando o peso deste lho permite. Temos também o militar e a sua metralhadora, o lenhador e a sua motosserra, o futebolista e a sua bola. E, por fim, não nos esqueçamos de Nipper, o Jack Russell terrier pintado por Francis Barraud (o seu dono), sentado de orelha em riste encostada à corneta de um gramofone. O vulcanólogo também se deixa por vezes fotografar de joelhos junto dos seus instrumentos, mas nem sempre, pois o chão está, muitas vezes, demasiado quente para isso.
CQD: Agachamo-nos junto do nosso instrumento quando aquilo que ele mede nos ultrapassa.