Num movimento contrário ao fumo sulfúrico, aos ventos, ao magma e ao pó, um enxame de corpos sobe os declives das crateras, pelas rugas do terreno – em direção ao centro da terra.
Cinzas, areia cinzenta, panos cobrindo o nariz e a boca, numa relação de economia e reverência mitológica que se alimentam da proximidade, à espreita a partir das orlas montanhosas, cobertas por um filme de fuligem que se entranha em todos os sentidos.
Nas aldeias de serrania, por trás das janelas: cortinas translúcidas em púrpura, verde-esmeralda e turquesa filtram a luz para o interior simples de casas e estalagens. Nas pequenas lojas, apenas bens essenciais para uma subsistência breve: comida, higiene, alinhados sobre mesas e montras, ou suspensos do teto, em fios: massas desidratadas e embalagens de shampoo. Uma velha chaleira de alumínio a fumegar. E em redor, campos de cebola e alho, que despontam.
Contido pelas montanhas e a caldeira imensa de Tengger, o Bromo aninha-se numa aglomeração de estruturas vulcânicas, rodeadas por um deserto plano e poeirento. Nesse extenso Mar de Areia, os caminhos humanos inscrevem-se como traçados. Sulcos de jipe e cascos de cavalo que rasgam a escassa vegetação rasa.
Passa-montanhas, lenços, capuzes e gorros cobrem, em indistinção, as multidões e o espanto da peregrinação e do turismo, e do turismo como peregrinação. Na planície, a espera. Entre as idas e vindas, cronometradas entre o templo no planalto e o topo do monte sagrado.
No mapa, as formas do Bromo e dos seus irmãos assemelham-se a órgãos, flores, conchas, desenhadas como entrelaçamentos da geologia e da botânica.
No centro da viagem, uma boca de enxofre. E na sua orla, a forma de um deus-elefante – junto do qual ardem incensos cor-de-carmim – que se diz ser capaz de remover obstáculos.
Como se habita (n)um vulcão?
Ao de leve, com um sentido constante de transitoriedade e mobilização, e um nomadismo latente, como quem dorme encostado ao calor morno de uma entidade imprevisível, que respira de garganta aberta.
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Ensaio e Colagem Digital realizados a partir de Fotografia, com Canon EOS Kiss X5, lente 18-55 mm: Outubro de 2015, antes da última erupção que encerrou a área; e Cartografia das «Montanhas Tengger», por Franz Wilhelm Junghuhn: 1844, Java: as suas características físicas, vegetação e estrutura interna.
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Nota: O monte Bromo é um dos locais mais visitados na região de Java oriental como destino turístico e local de peregrinação hindu. | Friedrich Franz Wilhelm Junghuhn (1809-1864) foi um médico e naturalista alemão, destacado para o território da Indonésia (então sob o domínio das Índias Orientais Holandesas), depois de se alistar na armada colonial, na sequência de uma evasão da prisão e uma breve passagem pela Legião Estrangeira Francesa. Estabelecendo-se na ilha de Java, onde realizou estudos de antropologia, botânica e geografia, Junghuhn tornou-se um objetor crítico do projeto de conversão cristã e islâmica dos javaneses, como os Tengger, que professam uma forma sincrética de hinduísmo com elementos de budismo e animismo, e se viram refugiados no topo das montanhas, em resultado da ocupação das áreas planas por plantações holandesas e trabalhadores madureses.