(.) Olhar para cima. Olhar para a frente. Elevações, triângulos esquemáticos, depressões e vales. Movimento e estagnação. Olhar para baixo. Acumulação, paciência, tempo. A própria constituição da terra, as suas paisagens, contornos, linhas. Fogo, destruição e vitalidade. Densidade e fragilidade. Embriaguez e caos. (..) A. escreve uma carta. Depois do café e uma quantidade exagerada de açúcar. Sobe para a bicicleta para percorrer a distância em pouco tempo. M. sentou-se junto ao velho gira-discos gigante, a vasculhar vinis antigos adquiridos na década de 1960. Uma canção do final dos anos 50, dos The Three Suns, onde vulcões são sinónimo de sol, mar e água de coco. (…) O livro Under the Volcano, de Lowry, começa com uma descrição de montanhas e vulcões; num local situado no paralelo 19, para ser mais exata. A narrativa do livro, impregnada de álcool e fumo de cigarro, apresenta o vulcão como o «outro» aterrador da personagem: «Nada além de pinheiros, pinhas, pedras, terra negra. No entanto, aquela terra parecia ressequida, e aquelas pedras eram, inequivocamente, vulcânicas. Por todo o lado, tal como Prescott nos informava, havia testemunhos da presença e da antiguidade do Popocatepetl. E ali estava aquela maldita coisa outra vez! Por que razão havia erupções vulcânicas? As pessoas fingiam não saber. Porque, sugeriam timidamente, debaixo das rochas, sob a superfície da terra, gerava-se vapor, cuja pressão aumentava constantemente; porque as rochas e a água, ao se decomporem, formavam gases que se combinavam com o material fundido no subsolo; porque as rochas aquosas próximas da superfície eram incapazes de conter o crescente complexo de pressões, e toda a massa explodia; a lava jorrava, os gases escapavam, e aí estava a erupção. – Mas não era essa a razão. Não, tudo aquilo continuava a ser um mistério completo. Nos filmes sobre erupções, viam-se sempre pessoas em pé no meio da inundação que se aproximava, encantadas. Muros desmoronavam-se, igrejas ruíam, famílias inteiras fugiam em pânico com os seus bens, mas aí estavam sempre essas pessoas, a saltar entre os jactos de lava derretida, a fumar cigarros…» (….) Os cineastas fazem listas. (…..) Tazieff escreveu sobre placas tectónicas e atividade vulcânica. A linguagem é objetiva, analítica, informativa, mas também poética. Crosta, rift, falhas, mosaico, sinclinal, dobras, intumescente, sísmico, oceânico, vulcanismo primário e secundário são apenas algumas das palavras cativantes utilizadas para explicar a geologia e a geomorfologia na obra A Formação da Terra: Vulcões e a Deriva Continental. No filme de 1966, Le Volcan Interdit, Tazieff escala o Nyiragongo para descer até à sua cratera – uma espécie de lar para o vulcanólogo, uma janela para o manto terrestre –, na tentativa de sistematizar as composições daquilo que nos sustenta. (……) A canção Ring of Fire, de Johnny Cash, a tocar em loop. O anel de fogo, um cinturão vulcânico que emoldura o Oceano Pacífico. (…….) M. lê um livro que descreve o encontro aterrador de uma antropóloga com um urso em Kamchatka, enquanto percorria a área do vulcão. A montanha recortava-se contra um céu nublado e a rocha parecia frágil sob os seus pés. Ela não viu nisso qualquer problema. À beira do vulcão, o encontro entre o ser humano e o urso torna-se o lugar onde mundos tidos como separados revelam, na verdade, a sua contiguidade. (……..)
(………) A. está a pensar em fazer um filme tendo um vulcão como tema central. Que ligação é possível estabelecer com uma montanha de fogo e como transpor isso para o cinema, evitando os momentos espetaculares e cativantes do ciclo de um vulcão? A sequência de abertura de Moyra Davey em Notes on Blue não lhe sai da cabeça: «Comecei com uma primeira nota para mim própria. Fiz uma lista. Mas vou começar pelo meio, com Blue Ruin, um filme de um minuto rodado em película expirada, sobre uma mulher, ao fim do dia, a tirar o sutiã por baixo da t-shirt, enquanto serve um shot de gin do congelador.» (……….) Um desmoronamento e uma renovação perpétuos. Os vulcões são polissémicos. (………..) A noite cai. A. e M. medem a distância de separação ao vulcão. Uma câmara para filmar, um sismógrafo para ler as cartas de amor do vulcão. (…………)
F. Meheux, «Secção da Terra no plano do Equador», 1875. Cromolitografia. F. Meheux, «Section of the Earth on the Plane of the Equator», 1875. Chromolitography.
Uma secção transversal da Terra no plano equatorial, produzida pelo litógrafo F. Meheux no século XIX. Ilustra teorias geológicas anteriores, como o plutonismo e a hipótese de que, no início, a Terra era lava derretida coberta por uma camada de crosta. (………….) A imagem arde. A película acabou. John Ashbery. «Mais uma volta? Não, mas as últimas coisas que sempre se encontram para dizer são encantadoras e salvam-me antes que a noite o faça. Estamos à deriva.» «Les hommes à leurs heures perdues», os homens nas horas vagas, escreveu Anne Carson.