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uma exposição-instalação vídeo, realizada em 2024, a convite da Aveiro 2024 - Capital Portuguesa da Cultura e apresentada durante os meses de Junho e Julho na Sala Estúdio do Teatro Aveirense, Aveiro.
«…depois de pulsar mais uma vez com os sentidos todos a terra em redondo»
Portugal, século XX, década de 1940, a exploração mineira está em expansão nas regiões Centro e Norte do país, com particular incidência no volfrâmio, um mineral que era utilizado para a produção de aço e outras ligas metálicas, essencial para a produção de armamento.
Sustentado num regime ditatorial de partido único e numa Europa em ebulição, em plena Segunda Guerra Mundial, Salazar tenta através de malabarismos diplomáticos reforçar a neutralidade portuguesa no conflito, mas acaba por negociar a exploração e venda de volfrâmio com os alemães e com os aliados.
O título deste trabalho original, uma exposição-instalação vídeo, produzida originalmente para Aveiro 2024 - Capital Portuguesa da Cultura, apropria-se de uma frase do romance Volfrâmio de Aquilino Ribeiro publicado em 1943. Certas imagens de arquivo presentes no vídeo e na edição adjunta provêm de uma publicação periódica, o jornal O Pejão, produzido na década de 1950 pela Empresa Carbonífera do Douro, que administrava as Minas do Pejão, situadas no distrito de Aveiro.
Este projecto continua a investigação sobre a memória do trabalho e dos seus operários, como aconteceu na obra Operários da Metalúrgica Alentejana (1995), em diálogo com os antigos metalúrgicos daquela fábrica, ou em Se estou meio morto é porque estou ainda meio vivo. (2020) em colaboração com os pescadores avieiros, instalação apresentada na entrada do Museu do Neo-Realismo. Também os projectos curatoriais COLLECTING COLLECTIONS and CONCEPTS, Uma viagem iconoclasta por coleções de coisas em forma de assim, exposição-instalação do programa oficial de Arte e Arquitectura da Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, ENSAIO PARA UMA COMUNIDADE — Retrato de uma coleção em construção (take 1) (2021-22) no MAAT Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia ou TRABALHO CAPITAL #1 e #2 (2019-2020), em que trabalhei com os antigos operários do complexo fabril da Oliva, revelam essa preocupação de tornar o conceito de trabalho operativo e afirmativo na concepção, produção e instalação de trabalhos-obras num contexto crítico e disruptivo que pode acontecer no campo de debate da arte contemporânea.
As comunidades mineiras marcham do paraíso à raiva com a celeridade de uma descida às galerias mais profundas. Não existe heroísmo na fome e no desespero de um trabalho mal remunerado e sem condições, na exploração da força física e moral, da dignidade de uma população.
As imagens e os textos rasurados, apresentados no vídeo e na publicação que acompanhou a projecção do vídeo, testemunham o discurso paternalista e a iconografia propagandística de um regime ditatorial fascista, idealizado pelo Governo da Nação, interpretado e disseminado pelos súbditos que o bem serviam.
As ruínas industriais que permanecem são um monumento no tempo presente da incivilidade e da impotência de um modelo económico de extrativismo desmesurado e sem complacências pela comunidade e pela natureza.
A imagem espectral de um antigo mineiro atravessa as inúmeras galerias das minas portuguesas e internacionais. Os longos planos fixos produzem uma desaceleração do tempo perante a voragem da memória. A montagem exacerba o que está fora de campo, entre os planos, fragmenta-se numa construção da memória colectiva histórica, social e política, revelando os ecos de um património material e imaterial, espaços fantasmáticos preenchidos temporariamente pela presença e pela voz de um antigo mineiro, que activa esse espaço industrial e a sua colossal maquinaria temporal.
Paulo Mendes, 2024
« Até bem longe, quinhentos a mil metros, se via gente, mulheres que lavavam a terra mineralizada ao ar livre e debaixo de telheiros, braços arremangados, pés descalços, saia colhida entre os joelhos para a água não esperrinchar pelas pernas acima. Rapazotes, com boinas de homem, sem cor à força de usadas, a carne tenra a espreitar das camisas cheias de surro e em frangalhos, vinham baldear no monte o carrinho atestado de calhaus em que coruscavam com o sol as pirites e palhetas de volframina. Mais ao largo, grande caterva de homens abria uma trincheira, e outra, para o morro, levava um banco de pedra e saibro à ponta de ferro e picareta. Aqui e além trabalhadores brocavam a rocha, enquanto a outros incumbia carregar os tiros de pólvora bombardeira. Crispados às varas dos sarilhos, muitos extraíam o resulho dos poços ou enxugavam-lhes a água para o trabalho prosseguir eficazmente. Era subterrânea, por vezes a dezenas de metros de profundidade, que se exercia a actividade capital da mina, com revólveres de ar comprimido a demolir o quartzo, piquetes de entivadores especializados a escorar as galerias, bombas eléctricas e manuais a sorver a água dos regueirões, escombreiros, mineiros de guilho e marreta, homens e mais homens à carga e à descarga – pessoal complexo, testo e sabido na manobra. À superfície era como um arraial. Por cima dos gritos, comandos, falas desencontradas, do retinir das ferramentas e estreloiçar das vagonas e raposas, o dinamo pulsava e a sua pancada mate e ensurdecedora criava este tónus especial, semibárbaro e feroz, da indústria moderna, homem e máquina conjugados. »
in Aquilino Ribeiro, Volfrâmio, 1943.