Subir e descer a Avenida de Ceuta, em Lisboa, de bicicleta ou a pé, fez parte do meu trajecto diário durante alguns anos, a partir de 2020. É um dos corredores verdes da cidade, parte integrante da 4ª Circular, onde três faixas de rodagem para cada lado nem sempre chegam para tanto carro e tanta pressa. Sinto em quem conduz na avenida a urgência de quem atravessa um lugar de passagem, a tentar entrar ou sair da cidade. Às sextas-feiras, as filas em direcção à ponte 25 de Abril estendem-se ao longo da avenida, e quem procura apenas atravessá-la acaba, por vezes, parado durante largos períodos de tempo.
De corredor verde, porém, ainda tem pouco para além das árvores. Os passeios são irregulares, incompletos, as passadeiras quase inexistentes e algumas paragens de autocarro permanecem isoladas, sem um percurso evidente para lá chegar. Entre a quantidade de trânsito e a dificuldade de circular a pé, a avenida continua pensada sobretudo como um canal para o trânsito fluir.
O que primeiro me levou a fotografar a Avenida de Ceuta foram as barreiras erguidas à volta dos viadutos, onde diariamente se concentravam pessoas a consumir drogas à beira da estrada. Foram instaladas grades e preenchidos com terra outros espaços de abrigo. À medida que estes lugares iam sendo encerrados, comecei a prestar mais atenção à floresta e ao pequeno troço de Monsanto que acompanha grande parte da avenida. As pessoas que antes permaneciam junto aos viadutos foram-se deslocando para zonas mais resguardadas e dispersas na floresta, construindo abrigos improvisados, mais longe da vista de quem passa.
É um espaço em constante mutação, onde as árvores anunciam a passagem das estações. Na Primavera e no Verão, a vegetação densa esconde abrigos e pessoas. No Outono e no Inverno, quando as folhas caem, volta a revelá-los. Há estruturas improvisadas que duram meses, outras apenas dias. As pessoas permanecem, mas os lugares que ocupam vão mudando.
Continuo a voltar e a fotografar a avenida, ainda com muito por conhecer. Mais recentemente, o trabalho estendeu-se aos bairros que a rodeiam. Tenho passado mais tempo com as pessoas que ali vivem, ouvindo as suas histórias e aprendendo novas formas de olhar para este território.