[Durante três meses serão publicados na revista Wrong Wrong pequenos ensaios e peças que propõem uma leitura do mundo a partir do/de Nada]
Estou sentado lá fora. Não passa uma aragem, não mexe uma palha. A paisagem está transformada numa natureza morta. Quando a cigarra se cala, a imagem petrifica-se de vez – parece que houve uma avaria eléctrica, diz Gómez de la Serna. O calor transparente ocupa o ar todo e afugenta os pássaros que por aqui estiveram de manhã a acordar toda a gente. O calor torna a atmosfera pastosa – os movimentos abrandam como num líquido ou na Lua. Não se vê nada que não esteja já aqui; não há nada que apareça ou desapareça – é a definição de pausa ou de imagem. É claro que as ervas e as unhas continuam a crescer, os cabelos, que o movimento aparente do Sol não se detém, e que as sombras o acompanham, mas nada disso se vê. Há movimentos que acontecem e não se vêem – como estes, muito curtos, muito lentos –, e há movimentos que não acontecem mas vêem-se, como quando o comboio do lado começa a rodar e parece que parados aceleramos finalmente.
Deve haver um limite de velocidade, da ordem dos milímetros por segundo talvez, para a visibilidade, uma fronteira na velocidade ínfima a partir da qual o movimento deixa de ser percepcionado por nós. Podemos perceber que o caule de uma planta cresceu de um dia para o outro, mas a sua velocidade discreta impossibilita-nos de o testemunhar directamente. No extremo oposto, a velocidade máxima também torna invisível a coisa que se move – não vemos a bala no seu trajecto mortal; há, aliás, espingardas que disparam a bala a uma velocidade superior à do som, para que a vítima apenas ouça o estrondo depois de ter sido atingida. A ignomínia é potenciada pela aparente inversão de acontecimentos – uma chegada antes da partida, o fim antes de um princípio.
O que ouvimos quando ouvimos algo é sempre resultado de uma viagem, de uma deslocação, vem sempre de algum lado, ao contrário do silêncio, que não oferece uma direcção. Por isso, no som, a origem é sempre uma questão; viramos a cabeça para ver de onde vem – até o surdo olha para o gato para perceber a origem do rumor. O mesmo não acontece com a visão, com a imagem; não nos interrogamos acerca da origem da imagem daquela montanha – ela está ali ao fundo.
A cigarra parou, a vegetação não se mexe, não há pássaros à vista. Não se vê nada mais do que o que não esteja já aqui, repito. Reparo e deparo-me com este cenário porque também eu estou parado – imóvel e absorto; é a melhor forma de perceber a imobilidade, sem sofrer os inconvenientes da paralaxe. Faço também parte da natureza morta.
Quando aquela cigarra se calou, voltei subitamente a ouvi-la. Acontece com os sons contínuos deixarmos de os ouvir e só voltarmos a reparar neles quando desaparecem de repente. Por uns segundos ouvimos, não o som mas a sua ausência. Estacionámos o carro à noite e quando voltámos de manhã, o carro já não está lá. Quando olhamos para aquele sítio específico, não vemos o lugar vazio, vemos a ausência do carro. Acontece o mesmo quando a cigarra se cala – durante uns segundos temos acesso a um tipo particular de silêncio, um silêncio cheio, de significado e substância, um silêncio sem som mas onde ainda ouvimos o rasto do ruído da cigarra. A nossa atenção é dirigida para um nada, para uma ausência, para algo que não está lá, para um vazio. Quando a cigarra se silencia, subsiste uma espécie de eco inaudível do som original, o que nos faz reparar no que já não se ouve.
Os sons intermitentes utilizam esta espécie de silêncio não vazio. Nos sons intermitentes, os momentos de ausência – de silêncio – fazem parte do próprio som, como se o silêncio fosse uma espécie de sombra de cada som. Os sons intermitentes são sons esburacados, cariados, mas não incompletos. Após um som, o silêncio, como após um gesto, a pose e a pausa. Os silêncios no interior do som intermitente são exactamente iguais – tal como o silêncio inicial; o mesmo não acontece com o silêncio derradeiro, o de saída, quando o som não volta mais. Este silêncio final tem um carácter diferente, por isso me fez voltar a ouvir a cigarra, precisamente quando já não havia som. Quando ouves a sirene da ambulância parar subitamente, estás perto do acontecimento.
Nos sons intermitentes, cada som é rodeado por silêncio como cada silêncio é rodeado por som – estão sempre a acabar e a recomeçar – e é este entrelaçamento que prefigura o toque no ombro. O alarme e a sirene têm essa forma – despertam porque, ao contrário, rapidamente nos habituaríamos a um som que fosse tão contínuo como um cheiro. A continuidade anestesia e torna dormente. O choro do bebé não é contínuo, funciona pela intermitência, funciona porque o silêncio se interpõe, funciona por causa dos sucessivos nadas. O intermitente contraria a planura (flatness) das coisas. É tanto o som como os silêncios aquilo que nos chama – é a congénita conjunção dos dois; os intervalos têm de ser comedidos, deverão ser constituídos sensivelmente pela mesma quantidade de matéria (som) e de vazio (silêncio); se estes intervalos se alargarem demasiado, perde-se a intermitência e o som muda dramaticamente de carácter.
No Inverno, a árvore de folha caduca fica esvaziada, fica apenas com o que é, como um esqueleto, passa a ocupar apenas o seu espaço, como a imagem instantânea da flecha, que ocupa apenas o seu próprio espaço e por isso também parece estática. Num registo acelerado, as árvores são intermitentes, com uma pulsação lentíssima de frondosidade e escassez, frondosidade e escassez, frondosidade e… A intermitência tem esta característica arbórea, sazonal.
Intermitente como todos os corações vivos ou intermitente como a roda dentada, um pente, um gradeamento, uma balaustrada. Intermitência quer dizer diferença e repetição dentro de um sistema, de um padrão. Intermitente como a pulsação, intermitente como a fala; intermitente como a passadeira para peões, que também ela é um interruptor.
Num livro escrito em 1995, Jean Baudrillard propunha uma espécie de arquitectura intermitente – uma arquitectura como ocupação provisória do espaço; em vez de altiva e perene, altruísta e volúvel. Naquele texto, Baudrillard defendia que os edifícios novos deveriam incluir nos seus pilares os buracos para os explosivos necessários a uma implosão futura. A construção facilitaria desde o início a sua própria obliteração; o espaço ocupado converter-se-ia num espaço meramente provisório, passageiro, temporário; intermitente, portanto.
Volto a entrar na casa, e na cozinha vejo o mármore iluminado por trás. Aqueles raios de Sol viajaram 150 milhões de quilómetros em cerca de oito minutos de velocidade máxima sem bater em nada; aquele feixe de luz serpenteou por entre planetas e luas, nuvens gasosas, asteróides, etc, para cair precisamente na nesga aberta que era aquela minúscula janela até pousar quase finalmente na placa de mármore rosa que escondia o lava-loiça dos olhares de quem vinha da rua. Às vinte horas, a luz já é rasante, e para chegar aqui, já pela atmosfera adentro, desviou-se também de árvores e montes, muros e casebres. De facto, dos confins da galáxia até àquela janela de cozinha aninhada num rés-do-chão no meio do nada, nada se interpôs entre o Sol e a placa translúcida de mármore. Do lado de cá percebia aquela luz viajada que trespassava a pedra porosa, pedra esponja, pedra espuma, pedra intermitente.
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