Fassbinder – NOW

Fassbinder – NOW

O Museu Martin-Gropius-Bau, em Berlim, apresenta até 23 de Agosto a exposição «Fassbinder – JETZT», organizada pelo Deutsches Filminstitut em colaboração com a Rainer Werner Fassbinder Foundation.  A mostra integra-se num ciclo de programação que celebra o nascimento do realizador alemão Werner Fassbinder (1945-1982). Nascido em Munique, Fassbinder manteve uma relação especial com a capital alemã, onde rodou «Berlin Alexanderplatz» (1979–80), a partir do romance de Alfred Döblin (1929).

Rainer Werner Fassbinder e Michael Ballhaus, 1970/71

A abordagem curatorial é historiográfica, pretende mostrar material e documentos do legado do realizador mas também salientar a relevância da sua obra para a criação contemporânea.
Numa primeira parte do circuito expositivo apresentam-se materiais de arquivo e do seu espólio, documentos e objectos originais relacionados com os seus projectos e o contexto de trabalho. Expõe-se guiões, a máquina de escrever, cartas e notas pessoais do cineasta, dactilografadas e manuscritas, bem como material de imprensa e entrevistas televisivas que dão conta da relevância do seu trabalho e da imagem e discurso público do realizador. Há também espaço para revelar a colecção pessoal de cassetes VHS, em que Fassbinder gravava programação televisiva. 
Esta visão sobre a trajectória e processos de trabalho do realizador, complementa-se com a apresentação de esboços e figurinos emblemáticos dos seus filmes, como o de Hanna Schygulla em «Lili Marleen» (1980) ou os uniformes dos marinheiros de «Querelle» (1982).
Uma outra parte essencial da exposição, mostra excertos das suas obras – como a famosa cena de 360º graus de «Martha» (1973) –, focando temas, dispositivos e a estética da sua cinematografia, assim como  o legado e influência da sua obra para a criação contemporânea.

Runa Islam, «Tuin (Garden)», 1998. Vista da instalação. Martin-Gropius-Bau, 2015

A acompanhar a visão histórica sobre o universo do autor, surgem representadas obras de artistas contemporâneos – de Runa Islam, Jeroen de Rijke / Willem de Rooij, Tom Geens, Maryam Jafri, Ming Wong e Jeff Wall – que, directamente ou indirectamente, se relacionam com a cinematografia de Fassbinder.

Ming Wong, «Lerne Deutsch mit Petra von Kant», 2007. Vista da instalação. Martin-Gropius-Bau, 2015

Se em «Tuin (Garden)» (1998), Runa Islam referencia «Martha» (1973), em «Lerne Deutsch mit Petra von Kant» (2007), Ming Wong deriva para a teatralização satírica, orientalizante, de «As Lágrimas Amargas de Petra von Kant» (1972). SVJ

Takehisa Kosugi, movimento imperceptível

Takehisa Kosugi, movimento imperceptível

Takehisa Kosugi, «Spacings», Ikon Gallery, 2015. Fotografia: Stuart Whipps

A Galeria Ikon, de Birmingham, apresenta a primeira grande exposição individual, no Reino Unido, do compositor e artista japonês Takehisa Kosugi.
Kosugi estudou musicologia na Tokyo National University of Fine Arts and Music no final dos anos 1950 e foi influenciado pela música experimental que irrompia na Europa e Estados Unidos e também pela música tradicional japonesa, em particular pelo conceito de «ma» do Teatro Nô. Trabalhou a espontaneidade nas suas performances sonoras, tendo fundado em 1960 o primeiro grupo japonês dedicado à improvisação colectiva, o Grupo Ongaku, e mais tarde os influentes Taj Mahal Travellers (1969). Esteve associado ao movimento Fluxus e, em Nova Iorque, colaborou com inúmeros artistas Fluxus, como Nam June Paik. Os seus interesses evoluíram da música para o que chamava «eventos», realizando trabalhos que relacionavam o som com o ambiente circundante.

Takehisa Kosugi, «Spacings», Ikon Gallery, 2015. Fotografia: Stuart Whipps

Kosugi foi compositor, performer (1975) e director musical (1995) na Merce Cunningham Dance Company, onde colaborou com John Cage, David Tudor e David Behrman entre outros, tendo ainda trabalhado com músicos de jazz como Steve Lacy, Motoharu Yoshizawa, Haruna Miyak. «Eu precisava de libertar a música do meu controlo, mas a improvisação é ainda controlada pelos hábitos de interpretar música. O que a electrónica me mostrou foi o movimento das ondas electrónicas a separarem-se de mim. Desenvolver uma relação com estes fenómenos é um modo de nos transcendermos», afirmou.

Takehisa Kosugi, «Mano-dharma, electronic», 1967. Vista da instalação em «Spacings», Ikon Gallery, 2015. Fotografia: Stuart Whipps

A exposição «Spacings» apresenta três instalações sonoras, incluindo uma feita especialmente para a Ikon. Combinando materiais do quotidiano e dispositivos electrónicos de rádio, elas envolvem interações com o vento, a eletricidade e a luz, estabelecendo relações sonoras entre os objectos.
«Mano-dharma, electronic» (1967) é uma obra em que Kosugi faz uso de ondas inaudíveis – como ondas de rádio-frequência e movimento do vento – desenhando o som por elas produzido através da interação de dispositivos e receptores de transmissão de ondas eletrónicas suspensos do tecto. O efeito é reforçado por um ventilador oscilante e visualizado através de uma projecção vídeo das ondas do mar.

Takehisa Kosugi, «Interspersion for Light and Sound», 2000. Vista da instalação em «Spacings», Ikon Gallery, 2015. Fotografia: Stuart Whipps

«Interspersion for Light and Sound» (2000) é um trabalho que incorpora o movimento imperceptível. Uma caixa em acrílico é preenchida com açúcar e/ou areia branca emitindo estalidos fracos de som e luz – causados pela transparência acústica e visual dos materiais granulares – através de um sistema eletrónico e lâmpadas LED escondidas. Kosugi expõe assim a maravilha de encontros acidentais e incerteza criados por fenómenos invisíveis aos nossos olhos.
A exposição está patente na Galeria Ikon, em Birmingham, até 27 de Setembro. MM

CARLOS BUNGA, I am a Nomad

CARLOS BUNGA, I am a Nomad

Carlos Bunga, «I am a Nomad». Vista da exposição no Museum Haus Konstruktiv, 2015. Cortesia do artista e Galería Elba Benítez, Madrid

Museum Haus Konstruktiv, em Zurique, apresenta a exposição «I am a Nomad» de Carlos Bunga. Na mostra, o artista português trabalha sobretudo a condição do «ser migrante» — mas inserido no contexto de um mundo global. Minimalista, nos materiais que utiliza, e que o distinguem na sua prática artística, apresenta mais uma vez obras onde a simplicidade e a abstracção funcionam como mnemónicas para realidades muito presentes nos «media».

Carlos Bunga, «I am a Nomad». Vista da exposição no Museum Haus Konstruktiv, 2015. Cortesia do artista e Galería Elba Benítez, Madrid

A exposição está dividida em dois pisos, encontrando-se num deles uma instalação «site-specific» composta por estruturas construídas em cartão, tinta e fita adesiva que sublinham a efemeridade das construções de habitabilidade, uma constante no corpo de trabalho do artista.
Noutro piso poder-se-á encontrar trabalhos de desenho, escultura e vídeo criados em resposta à instalação referida, gerando um diálogo mais alargado, que vai para além do uso da técnica que normalmente utiliza, forçando uma reflexão no espectador.

Carlos Bunga, «I am a Nomad». Vista da exposição no Museum Haus Konstruktiv, 2015. Cortesia do artista e Galería Elba Benítez, Madrid. Fotografia: Stefan Altenburger

Durante a exposição foi ainda criado um livro de artista, «DNA», em colaboração com a editora suíça Artphilein Editions. «DNA» é um (quase) caderno de projecto, que permite um entendimento mais profundo da sua obra. Compõe-se de duas partes: na primeira, Carlos Bunga cria um glossário pessoal, de A a W («From Absence to Work»  — como refere), onde para cada palavra criou um conjunto de notas, algumas como colecção de termos, outras reflexões pessoais sobre a palavra em questão; na segunda parte («From Creative Process to Temporality»), apresenta um conjunto de esboços com esquemas e reflexões manuscritas em torno de cada conceito enunciado.
Esta exposição, a primeira individual de Carlos Bunga em território suíço, decorre em paralelo com uma mostra individual de William Kentridge, até 6 de Setembro. PdR

MacGuffin: The Bed

MacGuffin: The Bed

MacGuffin é uma nova publicação semestral dedicada à vida dos objectos comuns. Publicada na Holanda, a abordagem editorial desta revista é em tudo divergente da perspectiva do design de produto e de consumo. Concebida como um projecto alternativo ao foco promocional e à vertente de divulgação sobre a inovação tecnológica no campo do design contemporâneo, na MacGuffin destacam-se as histórias de bastidores que envolvem os objectos anónimos e os usos quotidianos ou mais inusitados que fazemos da cultura material. 


Tal como os MacGuffins associados aos filmes de Alfred Hitchcock quase sempre um elemento sem importância, que constitui um pretexto para desencadear uma acção  e desenvolver uma cena ou história —, cada número desta revista tem por ponto de partida um único objecto, a partir do qual se exploram histórias pessoais e narrativas múltiplas, históricas, políticas, culturais e visuais a ele associadas. 


O primeiro número foca as nossas camas e conta com a colaboração de escritores, críticos, designers, artesãos e fotógrafos como Sam Jacob, Chris Kabel, Noriko Kawakami, Arnoud Holleman, Steven Heller, Wouter Vanstiphout, Madelon Vriesendorp e Labadie/Van tour. O projecto editorial é assinado por Kirsten Algera e Ernst van der Hoeven, e o design gráfico da autoria de Sandra Kassenaar. SVJ

HENRY DARGER, The Realms of the Unreal

O Musée Moderne de la Ville de Paris expõe até 11 de Outubro a obra de Henry Darger (1892-1973), figura lendária do século XX,  durante muito tempo marginal à cena artística. 

HENRY DARGER, The Realms of the Unreal

Musée Moderne de la Ville de Paris expõe até 11 de Outubro a obra de Henry Darger (1892-1973), figura lendária do século XX,  durante muito tempo marginal à cena artística.  Artista americano autodidacta, solitário, Henry Darger viveu num lar de doentes mentais (de onde fugiu) e grande parte da sua vida foi passada a trabalhar em serviços de limpeza de diversos hospitais. 

Henry Darger, «Second battle of McAllister Run they are pursued» (detalhel)

Porém, no seu tempo livre — sobretudo ao longo da noite —, dedicou-se secretamente à produção literária e pictórica, construindo uma obra de mais de 15.000 páginas: «The Story of the Vivian Girls, in What is Known as the Realms of the Unreal, of the Glandeco-Angelinian War Storm, Caused by the Child Slave Rebellion», ilustrada com uma série de várias centenas de aguarelas, desenhos e colagens. 
 

«Henry Darger’s Home». Fotografia: Nathan Lerner e David Berglund, c. 1970s. © American Folk Art Museum


Esta peça de ficção, descoberta meses antes da sua morte,  possuidora de um estilo muito singular e de uma mitologia complexa,  continua a exercer fascínio no meio artístico e a inspirar gerações de artistas: entre eles, Paula Rego, os irmãos Chapman, Paul Chan e Peter Coffin.  
Na exposição, mostram-se os grandes painéis de ilustração que Darger concebeu, de grande escala e desenho minucioso, ocupados dos dois lados, onde se narra a história da revolta das crianças escravizadas, as Vivian Girls, cruzando narrativas históricas e referências da cultura popular americana. SVJ