Simulabor – José Almeida Pereira com Cristina Regadas e Max Fernandes

Simulabor – José Almeida Pereira com Cristina Regadas e Max Fernandes

A relação humana com o trabalho serve de mote a esta exposição de José Almeida Pereira. Através da pintura e também do papel do pintor enquanto parte de um sistema artístico e sistema social, José Almeida Pereira questiona as convenções do trabalho e mesmo um certo modelo «taylorista» que tem vindo a impôr-se dentro das artes visuais.

Vista da exposição. Fotografia: VazReis

Os trabalhos apresentados interpolam momentos disjuntos da história da arte desordenados cronologicamente, e que no entanto reforçam-se ou reforçam a ideia da obsolescência do trabalho físico: desde o Sísifo de Tiziano, à Leiteira de Vermeer ou às Ceifeiras de Millet, culminando numa instalação quase cosmológica que refere o vanguardismo russo de Malevitch ou El Lissitzky – dissenso de corporalidade e apelando ao lado intelectual do trabalho.

Ainda que de forma não literal é intrínseca essa constatação através de uma evolução técnica invisível, que faz parte da própria história da humanidade, tanto através da constante mecanização trazida sobretudo pela Revolução Industrial, bem como da complexização operacional que constitui, no nosso tempo, os modelos de distribuição e comercialização, que igualmente primam pela maximização da escala recorrendo a uma standardização crescente e igualmente abstracta, em que a divisão do trabalho tem um papel fulcral.

Vista da exposição. Fotografia: VazReis

É nesse sentido que José Almeida Pereira questiona o seu papel: um artista, que se exprime através da pintura; ou um «curador», que abre o discurso e a reflexão sobre o tema  incluindo trabalhos de outros artistas?

Cristina Regadas e Max Fernandes partilham o espaço da galeria com José Almeida Pereira preenchendo o silêncio e a bidimensionalidade da pintura com instalações de vídeo e escultura.

A «pedra de Sísifo», de Cristina Regadas ganha forma criando uma tensão ameaçadora entre as pinturas abstractas em vidro – essas abstractas, dispostas numa quase constelação flutuante e supostamente libertadas da fisicalidade do trabalho.

Mas não se apresenta como algo natural. Igualmente carrega em si uma evolução física que se traduz pelo material – cimento, e que contém vários substratos de momentos geológicos do planeta. Uma constatação de que apesar da obsolescência continuamos prisioneiros do trabalho criando dentro da evolução técnica subjacente, novas «pedras» para carregar às costas.

Vista da exposição. Fotografia: VazReis

Max Fernandes apresenta, por outro  lado, dois trabalhos: um vídeo e uma vídeo-instalação. A instalação dialoga, de certa forma, com as abstrações reinterpretadas por José Almeida Pereira: uma bola de espelhos apresenta um círculo preto (como um Malevitch) projectado contra a parede, enquanto o som de um metrónomo interrompe o silêncio do espaço com uma imagem que vai mudando de posição pelas paredes e que mostra um dedo que se move, de acordo com o ritmo.

Já no vídeo, Max Fernandes aborda o tema com uma obra contendo várias interrogações e um certo activismo; uma sobreposição entre pintura e vídeo do espaço onde tem desenvolvido a sua actividade até à data, uma fábrica de tecelagem e tinturaria, agora desactivada – que originou uma polémica pela imposição forçada da Câmara de Guimarães em transformar o espaço e toda a envolvência num parque de estacionamento, expulsando as actividades artísticas que têm aí vindo a ser desenvolvidas –, um sinal do «progresso» urbanístico ao qual normalmente se denomina por gentrificação.

A exposição está patente na Galeria Graça Brandão, até ao dia 11 de Novembro. PdR

Do Outro lado do Espelho

Do Outro lado do Espelho

A exposição «Do outro lado do espelho», visitável até dia 5 de Fevereiro de 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian (Edifico Sede, Galeria Principal), reúne um conjunto de particularidades que fazem dela uma exposição bastante atractiva para o grande público. Cobrindo um arco cronológico extenso (do século XIII à actualidade), apresenta 69 obras seleccionadas por Maria Rosa Figueiredo (em colaboração com Leonor Nazaré) em que a pintura, apesar de predominar, convive harmoniosamente com trabalhos em escultura, fotografia ou vídeo.

Vista geral da exposição. Fotografia: CC

 

Divididas em cinco núcleos temáticos («’Quem sou eu?’: o Espelho Identitário»; «O Espelho Alegórico»; «A mulher em frente ao espelho: A Projecção do Desejo»; «Espelhos Que Revelam e Espelhos Que Mentem» e «O Espelho Masculino: Autorretratos e Outras Experiências»), as obras expostas são provenientes do Museu Gulbenkian e de muitas outras conceituadas colecções públicas e privadas (nacionais e internacionais) como o Centro Pompidou, a Tate, o Museo Reina Sofia, o Museu Nacional de Arte Antiga, o Museu de Ciências da Universidade de Coimbra ou a Caixa Geral de Depósitos, entre outras.

Daniel Blaufuks, «Mão com Espelho», 2010. Da série: O ofício de viver. Fotografia, impressão a jacto de tinta, 28 x 40 x 1 cm. Colecção particular

 

Para além da inquestionável qualidade de muitas das peças apresentadas, o projecto museográfico (que transforma de forma inesperada e desafiante o espaço expositivo), é outra das particularidades que merece ser destacada, envolvendo o visitante numa experiência diferenciadora.

Vista geral da exposição. Fotografia: CC

 

Numa exposição que assume como temática a recorrente presença do espelho na história da arte europeia, a figura feminina acaba por se revelar o denominador comum de muitas das obras. Entre a mulher voluptuosa e desafiadora, que contrasta com a que exibe uma beleza discreta e postura serena, passando pela que aclama o corpo esbelto e a postura misteriosa percebemos que, do outro lado do espelho, são elas que maioritariamente se sentam e se oferecem ao nosso olhar.

Jorge Varanda, Sem título, 1990. Tinta acrílica sobre contraplacado. 32 x 52 cm. Lisboa, Museu Calouste Gulbenkian

A presença do espelho abre uma imensidão de leituras possíveis, que vão da tentativa de representação mimética da realidade, sem no entanto descurar a consciência de que a superfície reflexiva pode iludir e enganar – quer privilegiando, quer deformando o original. Estabelecem-se através do recurso ao espelho um conjunto de jogos que, em última análise, recordam ao visitante que também ele se observa a si próprio quando fixa o olhar numa obra e se deixa cativar por ela.

Ana Vieira, «Toucador», 1973. Espelho, madeira algodão, tecido, plástico, rede 103 x 69 x 16 cm. Lisboa,. Museu Calouste Gulbenkian – Colecção Moderna

Trata-se de uma temática bastante abrangente, que por certo abriu inúmeras possibilidades de selecção de obras à curadora, podendo levar-nos a questionar a não presença de artistas que nos pareceriam escolhas mais ou menos óbvias (nomeadamente no domínio da arte contemporânea portuguesa). Cabiam de facto muitas peças nesta mostra, mas as que entraram não desiludem, e convidam o visitante, mais ou menos especializado, a deslocações recorrentes à exposição (recordamos que nas tardes de domingo a entrada é gratuita).

Wladimir Lukianowitsch von Zabotin. «A Menina do Espelho [Mädchen im Spiegel]», 1922 – 1927 . Óleo sobre tela. 92 x 75,5 cm. Karlsruhe, Staatliche Kunsthalle. © bpk / Staatliche Kunsthalle Karlsruhe / Annette Fischer/Heike Kohler

A propósito de «Do outro lado do espelho» foi desenhada uma programação paralela que incluí conversas com artistas que têm obras expostas, caso de Paulo Mendes e Cecília Costa. CC

Grada Kilomba

Grada Kilomba

No próximo dia 28 de Outubro às 18h30, vai ter lugar no Teatro Maria Matos uma conversa entre Carla Fernandes («Afrolis») e a artista interdisciplinar, psicóloga e teórica Grada Kilomba (Lisboa 1968).

Grada Kilomba, Bienal de São Paulo, 2016

Os temas abordados serão os da memória, das narrações oficias, das identidades e da alienação, dos traumas individuais e colectivos e de outros problemas centrais que continuamos a enfrentar hoje, tal como o racismo e as suas formas institucionalizadas e estruturais, a discriminação, o reconhecimento e a integração das minorias, as formas contemporâneas de escravidão e as práticas de descolonização do conhecimento.

Grada Kilomba, «Plantation Memories», Haus Der Berliner Festspiele, Berlim, 2015

Grada Kilomba publicou em 2010 «Plantation Memories. Episodes of Everyday Racism» sobre as experiências de racismo que viveu no Portugal do pós-fascismo dos anos 70 e 80. Dedica-se, entre outros projectos actuais, à realização performativa de textos críticos, activistas e políticos. 

Grada Kilomba, «Conakry», 2013

O evento é combinado com duas exposições das obras da artista: «The Most Beautiful Language», na Galeria Avenida da Índia com a curadoria de Gabi Ngcobo, vai ser inaugurada no dia 26 às 18h e decorrerá até dia 4 de Março. E «Grada Kilomba – Secrets to Tell» no MAAT, que inaugura também no dia 26 e que decorre até 5 de Fevereiro de 2018 com a curadoria de Inês Grosso. Uma segunda conversa terá lugar no Hangar no dia 3 de Novembro, às 19h. KS

«Quiet Motors» de Pierre Bastien – as máquinas e o próprio ao vivo

«Quiet Motors» de Pierre Bastien – as máquinas e o próprio ao vivo

Pierre Bastien apresenta a sua performance-escultura-concerto «Quiet Motors», em Portugal, a 18 de Outubro, no Sabotage (Lisboa), a 20 no Venha a nós a Boa Morte (Viseu) e no dia 21 no FIMP - Festival Internacional de Marionetes do Porto / Teatro Rivoli (Porto).

Este multi-instrumentalista e compositor ficou conhecido pela sua Orquestra Mecânica, por apresentar um sem número de projectos com autómatos musicais construídos e activados por ele próprio, e pelas suas instalações sonoras e colaborações com outros artistas, como Robert Wyatt, Jean Weinfeld, Pierrick Sorin ou Pascal Comelade.

Nas vésperas de lançar um novo disco («The Mecanocentric Worlds of Pierre Bastien», pela Discrepant, sairá já no final de Outubro; e neste mês lançou «Phantoms» em colaboração com Eddie Ladoire), Bastien circula e traz-nos o seu «Quiet Motors», concerto performance que combina sons produzidos por pequenas máquinas musicais e trompete de bolso, engrenando num tom muito próprio e num som que se cose ao espectáculo visual e poético.

O concerto resulta de uma organização conjunta entre a Matéria Prima, A Tarumba Teatro Marionetas e a Nariz Entupido. Esta última convidou também o artista multi-disciplinar António Caramelo para a apresentação em Lisboa de um concerto de estimulo máximo, que poderá incluir megafones e filme em película, no seguimento do projecto em construção permanente makearevolution*.

O cartaz para este acontecimento é desenhado por João Fonte Santa. BH

Artes e Letras

Artes e Letras

No dia 27 de Setembro, a Fundação Arpad Szenes e Vieira da Silva inaugurou a exposição «Artes e Letras» que consiste numa selecção de livros de artistas que foram editados pela famosa e dinâmica galeria parisiense Jeanne Bucher Jaeger desde a sua criação em 1925.

Georges Hugnet | Marcel Duchamp, «La Septième Face du Dé», 1936. Éditions Jeanne Bucher
Georges Hugnet | Marcel Duchamp, «La Septième Face du Dé», 1936. Éditions Jeanne Bucher

Estas edições e obras sobre papel, raras e muito pouco conhecidas, são amiúde resultado de colaborações entre escritores, poetas e artistas plásticos. A exposição, que traz para Lisboa obras mais confidenciais de Bellmer, Braque, Derain, Dubuffet, Duchamp, Ernst, Gris, Léger, Ray, Rouault, entre outros, e que inclui também, para além de Vieira da Silva, obras de artistas portugueses contemporâneos, decorre até ao dia 21 de Janeiro de 2018. KS