Abraham Cruzvillegas

Abraham Cruzvillegas

«Empty Lot» é o projecto do artista mexicano Abraham Cruzvillegas realizado no âmbito da nova série de projectos anuais patrocinados pela Hyundai na Turbine Hall da Tate Modern. Formada por duas plataformas triangulares escalonadas e apoiadas por andaimes,  a instalação de dimensão monumental é formada na sua zona superior por uma estrutura com 240 canteiros com 23 toneladas de terra retirada de parques e jardins da cidade.

Abraham Cruzvillegas, «Empty Lot». Hyundai Commission 2015. © Abraham Cruzvillegas. Fotografia: Andrew Dunkley © Tate 2015

Não sendo este um espaço destinado à produção e sem que o artista tenha plantado alguma espécie vegetal no solo, é bem possível que durante o período de exposição, brotem da terra cogumelos e pequenas plantas de sementes ou bolbos por influência de pontos de luz instalados e improvisados pelo artista a partir de materiais encontrados nas imediações da Tate.

Abraham Cruzvillegas, «Empty Lot». Hyundai Commission 2015. © Abraham Cruzvillegas. Fotografia: Andrew Dunkley © Tate 2015

Com esta peça Abraham Cruzvillegas deseja retratar a relação entre o espaço urbano e a natureza num dos locais mais movimentados, habitados e visitados da cidade, deixando em aberto a possibilidade de haver ou não transformações da peça ao longo da exposição. De resto, é esta imprevisibilidade que Cruzvillegas mais destaca neste projecto, desafiando os visitantes a ter esperança e convidando-os a acompanhar semanalmente o seu desenvolvimento. 

Abraham Cruzvillegas, «Empty Lot». Hyundai Commission 2015. © Abraham Cruzvillegas. Fotografia: Andrew Dunkley © Tate 2015

Cruzvillegas pertence a uma geração de artistas mexicanos que emerge na década de noventa e que desenvolveu um corpo de trabalho de natureza escultórica, baseado na auto-construção de peças com objectos maioritariamente encontrados no espaço onde vive e trabalha, na Cidade do México. O seu método de criação artística inspira-se sobretudo na forma como a geração dos seus pais, vinda da zona rural do México, se instalou nos anos 60 na capital, construindo as próprias casas em etapas, através da apropriação/reutilização de materiais e improvisação artesanal de soluções arquitectónicas. Para este projecto na Tate, Abraham Cruzvillegas, afirmou ter como referências principais as formas construtivistas de El Lissitsky e o trabalho do arquitecto Buckminster Fuller, com os seus desenhos e cúpulas formadas pela intersecção de elementos triangulares. SVJ

Francisco Pinheiro & Luísa Salvador

Francisco Pinheiro & Luísa Salvador

Em 2014, Francisco Pinheiro (Lisboa, 1981) e Luísa Salvador (Lisboa, 1988) formaram o colectivo de artistas West Coast. Actualmente, e até 10 de Janeiro, pode visitar-se a sua exposição «Mudar para que nada mude» no Espaço Espelho d'Água, em Lisboa. 

West Coast, «Mudar para que nada mude», 2015. Instalação: serigrafia / vaselina s/ papel, acrílico, madeira, leds

A instalação, composta por uma série de serigrafias, remete para a Exposição do Mundo Português que decorreu entre os meses de Junho e Dezembro de 1940. A relação com o Espaço Espelho d´Água é incontornável na medida em que ele corresponde, precisamente, a um dos pavilhões que resistiu e foi construído para a mostra – expoente máximo do regime vigente, integrando-se numa campanha de abrangência internacional de afirmação e exaltação da identidade nacional,  nomeadamente da sua vertente colonialista. «Mudar para que nada mude» repesca a componente propagandística associada à exposição de 1940 e recria um pavilhão fantasma evocativo da mesma.

West Coast, «Mudar para que nada mude», 2015. Instalação: serigrafia / vaselina s/ papel, acrílico, madeira, leds

Em destaque estão as serigrafias realizadas com vaselina e expostas sobre uma mesa de luz, tornando-se visíveis através da camada transparente da gordura embebida no papel, criando um jogo de inversão positivo/negativo e a deformação da imagem. O conceito de petrificação, termo geológico que se refere ao processo de transformação de um material noutro sem que isso implique a perda da sua forma, é apontado como um dos pontos de partida da exposição, na medida em que o próprio espaço que acolhe a mostra sofreu alterações no que respeita aos seus materiais mas manteve a sua forma arquitectónica original.

West Coast, «Mudar para que nada mude» (pormenor), 2015. Instalação: serigrafia / vaselina s/ papel, acrílico, madeira, leds

O colectivo tem como objectivo, a partir de intervenções no espaço público (assumindo o formato não só de exposições, como de conversas e outros eventos), reflectir e debater sobre as culturas costeiras e o imaginário marítimo que lhes está associado, propondo-se fazê-lo com uma abrangência que extrapola a realidade portuguesa através do estabelecimento de projectos em parceria com artistas provenientes de outras regiões costeiras espalhadas um pouco por todo o mundo. O colectivo tem também a particularidade de, em todas as luas cheias, publicar no seu site uma entrevista, uma reflexão ou um vídeo relacionados com a temática explorada. CC

Willie Doherty

Willie Doherty

«Uma e outra vez» foi o título que o próprio Willie Doherty (Irlanda, 1959) escolheu para a sua exposição, de carácter antológico, patente no Centro de Arte Moderna a partir de 20 de Novembro (até 22 de Fevereiro), com comissariado de Isabel Carlos.

Willie Doherty, «Remains», 2013. Cortesia do artista e Alexander and Bonin, N.Y.; Kerlin Gallery, Dublin; Matt’s Gallery, Londres; Galerie Peter Kilchmann, Zurich; Galeria Moises Peres de Albeniz, Madrid | Willie Doherty

O conjunto das dez obras apresentadas, sobretudo vídeos, abrangem um arco cronológico entre 1991 e 2014 e são representativas das suas especificidades autorais e de um percurso expositivo de referência que já passou pela sua selecção para o Turner Prize (em 1994 e 2003) e pelas Bienais de Veneza e São Paulo.

Willie Doherty, «The Amnesiac», 2014. Cortesia do artista e Alexander and Bonin, N.Y.; Kerlin Gallery, Dublin; Matt’s Gallery, Londres; Galerie Peter Kilchmann, Zurich; Galeria Moises Peres de Albeniz, Madrid | Willie Doherty

Reflexões em torno da noção de fronteira que se estruturam, sobretudo, a partir de uma determinada geografia política, a da Irlanda, invocando as suas múltiplas tensões (entre o Norte e o Sul, entre católicos e protestantes, entre a república e o reino, entre terroristas e vítimas, entre outras) sem que, no entanto, toda a agressividade e violência latentes e iminentes se tornem alguma vez explícitas nas suas imagens em que a repetição e a recorrência são uma constante, bem como a relação determinante estabelecida entre a palavra e a própria imagem.

Willie Doherty, «The Amnesiac», 2014. Cortesia do artista e Alexander and Bonin, N.Y.; Kerlin Gallery, Dublin; Matt’s Gallery, Londres; Galerie Peter Kilchmann, Zurich; Galeria Moises Peres de Albeniz, Madrid | Willie Doherty

Tensões camufladas através de uma realidade que é frequentemente mostrada a partir de cenários de natureza evocativa assumidamente bucólica. Doherty reflecte, em última análise, sobre a condição humana sendo a presença da figura humana precisamente o fio condutor para a selecção das obras que compõem a mostra  – ainda que essa presença nem sempre se efective, deixando-se adivinhar através das marcas de ausências. CC

Histórias de pó

Histórias de pó

«Dust/Histoires de poussière d’après Man Ray et Marcel Duchamp» é uma exposição colectiva apresentada no espaço LE BAL, em Paris. Parte de uma fotografia estranha feita por Man Ray e Marcel Duchamp em 1920. Numa visita ao atelier de Marcel Duchamp, em Nova Iorque, Man Ray vê uma placa de vidro coberta de uma espessa camada de poeira. Duchamp deixou que a poeira se acumulasse durante meses, procurava caminhos nas suas técnicas mistas.

Man Ray e Marcel Duchamp, «Élevage de poussière», 1920. Cortesia Galerie Françoise Paviot © ADAGP, Paris, 2015

«Olhando-a  enquanto focava, essa obra apareceu-me como uma estranha paisagem vista do alto. Via-se o pó e pedaços de tecido e resíduos de algodão que tinham servido para limpar as partes acabadas, o que adensava o mistério (…) Era preciso um tempo de exposição longo; abri o obturador e fomos jantar, tendo regressado à volta de uma hora mais tarde; fechei então o obturador.», escreve mais tarde Man Ray.
Ao longo do tempo, a imagem tornou-se um talismã, um segredo silencioso, uma chave para descobrir tanto uma ordem oculta da fotografia e da revolução que prefigura na história da arte. Como refere David Campany, curador da mostra, talvez ela simbolize o colapso do nosso tempo e a fundação de uma nova era. Ao longo das décadas, a fotografia de Man Ray será publicada em diversos livros e revistas, com o título «Vue prise en aéroplane». Em 1934, a imagem foi finalmente intitulada «Élevage de Poussière», numa edição de dez exemplares, assinados à vez por Man Ray e Marcel Duchamp.
A exposição conta uma história especulativa. Uma única fotografia que nos confronta com o tempo, o acaso, a indeterminação espacial, a ambiguidade sobre a origem da imagem e seu autor, a coincidência entre fotografia, escultura e performance, o formal e o informal, o infinitamente distante e infinitamente grande, propondo uma meditação sobre a noção de processo e o colapso das distinções convencionais entre documento e trabalho informal.

Gerhard Richter, Sequência extraída do livro «128 Details from a Picture» (1978), 1995. Cortesia do artista e da Marian Goodman Gallery

Esta imagem, quase trivial e insignificante, torna-se complexa e visionária. Dela se encontram ecos no trabalho de artistas como Bruce Nauman, Edward Ruscha, John Divola e Gerhard Richter e criadores ligados à Arte Bruta, ao movimento Fluxus e à Arte Povera.
Dirá Man Ray: «eu prefiro fotografar uma ideia do que um objecto, e um sonho mais do que uma ideia... esta violação dos materiais é uma garantia das convicções do autor» («L’Âge de la Lumière », Minotaure, 1933).

Sophie Ristelhueber, página dupla extraída do livro «Fait: Koweit 1991», Éditions Hazan, 1992

A exposição é formada por 150 obras e objetos, de Man Ray, John Divola, Ristelhueber, Walker Evans, Mona Kuhn, Aaron Siskind, Gerhard Richter, Xavier Ribas, Nick Waplington, Eva Stenram, Georges Bataille, Jeff Wall e também vistas aéreas, imagens forenses, cartões postais, fotografias amadoras.

Fotógrafo desconhecido, «Kansas dust Storm, barren earth», 1935. Fotografia de imprensa

A exposição permanece no espaço LE BAL, em Paris, até 17 de Janeiro de 2016. MM

Ragnar Kjartansson

Ragnar Kjartansson

Ragnar Kjartansson acabou de inaugurar a exposição «Seul celui qui connaît le désir» no Palais de Tokyo, onde apresenta um conjunto de novas peças. Islandês, a viver em Reykjavik, Ragnar Kjartansson tem desenvolvido um trabalho que cruza diferentes áreas artísticas, performance, teatro, cinema, escultura, ópera, pintura e música. 

Ragnar Kjartansson, «Seul Celui qui Connaît le Désir», 2015. Palais de Tokyo, Paris, 2015. Cortesia do artista e Luhring Augustine (Nova Iorque); i8 Gallery (Reykjavik). Fotografia: Aurélien Mole.

Particularmente interessante é o modo como o artista tem tornado muito presente o registo e as características mais definidoras do teatro no seu trabalho performativo – discursos aparentemente opostos –, aplicando o modo repetitivo nas suas apresentações e relacionando aspectos da expressão teatral e da  cenografia nas suas obras e nos seus formatos e dispositivos de exposição. Dessa prática é exemplo a nova peça intitulada «Bonjour» (2015), uma performance sobre o reencontro fugaz entre uma mulher e um homem que se repete diariamente ao longo da duração desta sua primeira mostra individual em França, num cenário construído à escala real.

Ragnar Kjartansson, «Bonjour», 2015. Palais de Tokyo, Paris, 2015. Cortesia do artista e Luhring Augustine (Nova Iorque); i8 Gallery (Reykjavik). Fotografia: Aurélien Mole.

Essa forma de pensar as suas peças, com apresentações repetitivas, tem sido seguida em várias ocasiões. Em «Bliss» (2011), constituiu um loop da repetição de um excerto de 2 minutos de uma ária final das «Bodas de Fígaro» de Mozart, durante 12 horas. Em «A lot of Sorrow», apresentada em 2013, no MoMA PS1, em Nova Iorque, numa performance realizada durante seis horas o grupo The National repetiu 105 vezes a música «Sorrow» de três minutos.

Ragnar Kjartansson, «Seul Celui qui Connaît le Désir», 2015 (à frente) e «Bjarni Bummer Listens to Take It Easy by The Eagles», 2014 (atrás). Palais de Tokyo, Paris, 2015. Cortesia do artista e Luhring Augustine (Nova Iorque); i8 Gallery (Reykjavik). Fotografia: Aurélien Mole.

A tradição da linguagem teatral e as formas de mise-en-scène estão igualmente presentes em «Seul celui qui connait le désir» (2015), que reúne grandes pinturas que representam glaciares e corpos rochosos que evocam a tradição teatral dos cenários pintados. 
A literatura é também um tema recorrente na sua obra. O título da exposição retoma um poema de Goethe. De resto, o mundo trágico dos românticos, a ideia de resistência e de desconforto têm sido recorrentemente explorados no seu trabalho. Anteriormente desenvolveu uma série de obras inspiradas em «World Light» (1937-1940), romance do Nobel islandês Halldór Laxness, que retrata a história de um artista maldito.  Em 2009, quando representou a Islândia na Bienal de Veneza, realizou uma maratona de pintura no pavilhão islandês, situado no Palazzo Michiel dal Brusà, aí permanecendo durante seis meses de forma continuada. Foi nesse local que situou o seu ambiente de trabalho, encenando um atelier convencional e interpretando o papel de “artista” de concepção romântica, com jornadas de trabalho intenso, inspirado, obsessivo, num projecto que intitulou The End.
Com um largo reconhecimento internacional, Ragnar Kjartansson tem exposto regularmente na Europa e nos Estados Unidos. Em 2013, apresentou pela segunda vez o seu trabalho na Bienal de Veneza e, em 2014, no ICA de Boston, no New Musem em Nova Iorque e no Guggenheim de Bilbao. A mostra permanece até 10 de Janeiro de 2016 no Palais de Tokyo. SVJ